saúde mental

Os caminhos da inteligência emocional

Andreza Taglietti

A inteligência emocional não é suficiente sem uma base ética.  Na busca de uma aspiração elevada e altruísta, trabalhar diariamente nossa intenção nos ajuda nesse sentido, porque exclui o que não está alinhado a nossos valores. É importante olhar para o que surge de dentro para fora e adotar uma prática frequente de questionamento - nossa agenda reflete nossas preferências? Está coerente com nossos valores? Temos o hábito de revisitar nossos propósitos? Como isso reflete no nosso entorno (família, colegas de trabalho, amigos etc)? Conseguimos entender quais impactos que nossas atitudes e decisões geram nas outras pessoas e em nós?

Se realizado de forma constante e honesta, esse exercício nos permitirá cultivar uma atenção maior à felicidade e ao sofrimento que engendramos por meio dos nossos atos, de nossas palavras e de nossos pensamentos. Para Matthieu Ricard*, “existem aqui dois fatores determinantes: a motivação e as consequências dos nossos atos (...) Sempre temos a escolha de adotar uma motivação altruísta e de nos empenharmos para ajudar a criar um resultado positivo. Dessa maneira, é preciso examinar incessantemente a nossa motivação, como diz o Dalai Lama: “Estamos agindo com a mente aberta ou com uma mente pequena? Levamos em consideração a situação geral ou estamos vendo somente algumas especificidades? Vemos as coisas a curto ou a longo prazo? [...] A nossa motivação é genuinamente compassiva? [...] A nossa compaixão está limitada apenas às nossas famílias, aos nossos amigos e àqueles com quem nos identificamos? [...]. O núcleo essencial da ética é, portanto, o nosso estado mental e não a forma que tomam as nossas ações”.

Ética, aspiração, propósito, valores. Não há consenso sobre esses conceitos num mundo multicultural, subjetivo, líquido e flutuante como o nosso. Temos responsabilizado as redes sociais, as crises globais, o descaso pela educação, os líderes. Mas isso sempre aconteceu, em várias sociedades e em diversos contextos. Há muitos exemplos nas mitologias, nas religiões, nas sociedades medievais - sempre houve situações conflituosas que testavam e questionavam os limites da ética e valores como lealdade e honestidade. Nesses histórias e narrativas, modernas ou antigas, a inteligência emocional está presente, mas muitas vezes inserida num contexto de manipulação, controle e abuso.  

Os cientistas têm se interessado por esse uso não-ético da inteligência emocional.  Um estudo de 2013 revelou que aqueles que tendiam a explorar os outros para ganho pessoal também eram bons em ler as emoções, especialmente as negativas. Uma pesquisa de 2011 indicou - pessoas que têm mais consciência de como regular as emoções e que mostram uma tendência a manipular os outros para ganho pessoal são mais propensas a se engajar em ações desviantes, como envergonhar publicamente alguém no trabalho.

Em 2010, um grupo de cientistas descobriu que indivíduos que demonstraram certos traços narcísicos (em essência, um padrão generalizado de grandiosidade, autofoco e auto-importância) passaram boas impressões iniciais para seus pares, usando humor e expressões faciais encantadoras. Isso quer dizer que as pessoas movidas por interesses próprios são mais talentosas em influenciar e ganhar o apoio dos outros.

Além das constatações citadas acima, vale destacar também outros pontos observados por estudiosos e pelos profissionais da área de Saúde Mental sobre o lado não-ético da inteligência emocional, e um exemplo é o uso da empatia. Para o psicólogo Paul Gilbert, ela não implica necessariamente bondade ou altruísmo. A empatia também torna possível a tortura, ressalta Gilbert. Sem empatia, um torturador não teria nenhum conceito do sofrimento que ele está causando. Ele sabe a dor que está causando justamente porque ele é capaz de desenvolver um alto grau de empatia e tem a habilidade de "colocar-se nos sapatos de outra pessoa".

Ser persuadido, motivado e influenciado por outros pode ter um lado positivo - contanto que resulte em um comportamento consistente com nossos valores. Se isso não acontecer e se descobrirmos que fomos enganados ou manipulados, podemos tentar entender nossas vulnerabilidades daquele momento (por que deixamos a porta aberta da nossa casa para a pessoa entrar?) e procurar ferramentas para regular nossas emoções.

Com o cultivo da autocompaixão, da compaixão e com a prática da meditação e da observação, ampliamos a autoconsciência e o estado de vigilância dos nossos pensamentos e das nossas ações. Isso nos ajuda a evitar que nos tornemos escravos de nossos sentimentos, mesmo quando um manipulador habilidoso trabalha duro para explorá-los. Dessa forma, desenvolvemos e aperfeiçoamos nossa própria inteligência emocional, evitando agir de uma maneira que não seja do nosso interesse ou que esteja em conflito com nossos valores e princípios, evitando ou diminuindo episódios de arrependimento.

Matthieu Ricard nos lembra - “A ética prática deve levar em conta, com visão interior e compaixão, todos os prós e contras de uma dada situação (...) É grande a dificuldade de pô-la em prática, porque ela transcende o recurso cego e automático ao texto da lei e aos códigos morais. Portanto, também é grande o risco que corre de ser distorcida ou manipulada. De fato, essa ética requer um tipo de flexibilidade que é, em si, uma fonte de perigo. Se for cooptada pelo egoísmo e pela parcialidade, pode ser explorada para fins negativos que vão contra os seus objetivos iniciais. Daí a necessidade, para todos e em especial para aqueles que exercem a justiça, de desenvolver a sabedoria e uma profunda preocupação com o bem-estar dos outros”.

 

Fontes para o texto:

* Felicidade, A prática do bem-estar - Matthieu Ricard

**Artigo da Time - http://time.com/5300642/dark-side-emotional-intelligence/  

Foto Saray Jimenez

etica saray-jimenez-487315-unsplash.jpg

Autocompaixão: conhece-te a ti mesmo; ocupa-te de ti mesmo

O hábito de experimentar amor e ternura por nós mesmos

Por Andreza Taglietti

A autocompaixão conecta o desejo interior de estar saudável e feliz. Se nós nos ocupamos de nós mesmos, damos início a um amadurecimento e a um crescimento psicológico, com mais consciência, mais sabedoria e mais amor – por nós e pelos outros. Certamente vamos querer mudar os padrões de conduta, mesmo que isso signifique renunciar a certas coisas que gostamos ou que temos apego.

No livro Self Compassion, Kristin Neff fala sobre o esforço puro e prolongado (definição de Buda) como qualidade motivadora da autocompaixão. Provém do desejo natural de curar o sofrimento, solucionar o problema, e não é o resultado de um comportamento egoísta. E podemos ser amáveis e sensíveis nesse caminho de aprendizado e de mudança. Podemos reconhecer que a vida é dura, que os desafios fazem parte da experiência humana. Por sorte, a amabilidade e o apoio criam sentimentos positivos e nos ajudam a seguir nessa busca diária pelo cultivo da autocompaixão.

Essa passagem do livro pode ser automaticamente associada à filosofia grega (e aos estudiosos dessa filosofia, como o francês Michel Foucault). No conselho do Oráculo de Delfos aos antigos gregos, “conhece-te a ti mesmo” é considerado o marco inicial da longa trajetória da humanidade rumo ao autoconhecimento. Conhecer-se é o ponto de partida para uma vida equilibrada e, por consequência, mais autêntica e feliz. Nessa visão, maturidade não é um desdobramento natural do tempo vivido, e sim resultado da vontade, do esforço de cada indivíduo em conquistá-la. 

Em Apologia de Sócrates, Sócrates (por meio de Platão) é o encarregado pelos Deuses de lembrar e incentivar os homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Ao proclamar o cuidado de si em Atenas, ele abre mão de uma série de situações consideradas vantajosas, como fortuna e cargos de poder e que, agindo assim, conseguiu despertar, pela primeira vez, os cidadãos de Atenas de um profundo sono. Portanto, o cuidado de si é a realidade mais admirável, pois proporciona algo equivalente a uma vida consciente, ativa e desperta.

Quando o “conhece-te a ti mesmo” surge na filosofia, precisamente com Sócrates, aparece como uma aplicação particular de uma regra mais geral: o cuidado de si. Ocupar-se consigo mesmo é condição para governar os outros, reflete no nosso externo - nosso entorno, nossa vida em sociedade e nossas relações. Quando fazemos o exercício de nos cuidarmos e nos olharmos, abrimos espaço para reflexões importantes como: que qualidades do coração e da mente queremos fomentar e nutrir em nós mesmos e levarmos para o mundo?  De quais qualidades da mente ou comportamentos gostaríamos de nos libertar?

A segunda questão não pode ser negligenciada. Ao longo da nossa jornada diária há obstáculos que nos bloqueiam, porque são acompanhados de tristeza, traumas, frustrações, emoções negativas. Mas, se há sofrimento, precisamos reconhecer que ele existe. E a autocompaixão primeiramente requer que tomemos consciência dele e dos hábitos que obstruem nosso próprio bem-estar. Também nos conduz a um comportamento proativo (em lugar de passivo) para melhorar a situação pessoal. Ter compaixão por si mesmo não significa crer que “os meus problemas são mais importantes que os seus”, mas sim pensar que os meus problemas também são importantes e requerem a MINHA atenção (e não a dos outros). Ou seja, mais uma vez, o ponto de observação e consciência é “preciso me ocupar de mim mesmo”.

A autocompaixão é um presente precioso ao alcance de qualquer um que esteja disposto a se descobrir. Quando desenvolvemos o hábito da bondade interior, o sofrimento se converte em uma oportunidade para experimentar amor e ternura com nós mesmos. Não importa quão difícil estejam as coisas. Podemos acalmar e consolar nossa própria dor, por meio de um genuíno cuidado com nós mesmos. Não precisamos de ninguém para nos brindar com calor e compaixão para nos sentirmos dignos de amor. Não temos que buscar fora de nós a aceitação e a segurança que desejamos. Quem pode saber melhor que você como se sente abaixo dessa fachada alegre? Quem conhece melhor o alcance da dor e do medo que você enfrenta, quem sabe melhor do que você o que você necessita? Quem é a única pessoa da tua vida que está disponível por 24 horas do dia e sete dias da semana para te proporcionar amor e acolhimento? Você. 

Somos merecedores de carinho e atenção. A autocompaixão é uma poderosa ferramenta para conseguir cultivar as causas do nosso bem-estar e da nossa satisfação pessoal. Ao brindarmos com nós mesmos afeto e consolo incondicionais, aceitando ao mesmo tempo a experiência humana, por mais difícil que seja, evitamos condutas negativas como o medo, a negatividade e o isolamento. Ao mesmo tempo, fomenta estados mentais positivos, como a felicidade e o otimismo.

Texto com base no livro Self Compassion, de Kristin Neff

Foto: Sharon McCutch

sharon-mccutcheon-521259-unsplash.jpg

Os jovens – suas cores e suas dores Por Andreza Taglietti

O que tento ensinar às crianças é que temos que ser mais reais sobre nossas emoções. A frase é de Michael Pritchard, um comediante que disse não aos holofotes de Hollywood e preferiu usar o seu talento no mundo real, conectando jovens e adultos (pais, educadores, pedagogos). O documentário Happy nos dá uma degustação do trabalho de Pritchard e nos mostra a ocasião em que ele divide o microfone, a narrativa e as atenções com os estudantes que estão ali para escutá-lo. Em determinado momento, o papel se inverte – Pritchard escuta; eles falam. Sobre suas vidas, seus desafetos, suas lutas diárias em ambientes que podem ser extremamente hostis para eles.

Os diversos vídeos de Pritchard no Youtube seguem a mesma linha: ele destina parte de suas palestras para os alunos se manifestarem. Há um ponto impressionante em comum em todos esses encontros: a capacidade que ele tem de deixar as crianças e adolescentes confortáveis ao exporem suas histórias em público. Para a surpresa de pais, pedagogos e professores, eles compartilham, de maneira corajosa, seus sentimentos, suas emoções, suas dores, seus traumas.

“Essa força de caráter para se levantar e se levantar por si mesmo e para ajudar os outros a tentarem ser mais compassivos - se pudermos aproveitar isso como um recurso para o mundo, essa apatia, essa negligência, essa indiferença, vai acabar. E esse é o começo da paz”, diz Pritchard. Numa linguagem simples e sincera, e também usando seus recursos de comediante, ele sensibiliza a plateia, estimula reflexões profundas e endereça mensagens importantes que acompanharão a trajetória de vida do indivíduo no longo prazo - “não importa o que a gente ensine para seus cérebros, o amor é mais importante que o conhecimento. A melhor coisa que podemos fazer por um jovem é ajudá-lo a aprender a amar”.

De forma geral, crianças e jovens são provocados, ridicularizados, excluídos e isolados. Por isso, é importante acompanhá-los, escutá-los atentamente, abrir e manter um canal de diálogo para saber e entender o que eles estão pensando e sentindo. É essencial criar um ambiente no qual se sintam confortáveis, em que eles tratem bem uns aos outros, reconheçam e acolham suas cores e suas dores. Sem julgamentos. Elas precisam ser divididas e respeitadas. “Nós ficamos doentes se tentamos conter toda a dor. E então a dor não tratada se transforma em raiva e a raiva se enfurece. E há duas direções, para a comunidade e para dentro – em direção ao eu e à autodestruição ”, diz Michael Pritchard.

A escola e as emoções

Armadilhas emocionais. Jovens mais vulneráveis e sem coragem de pedir ajuda. Isolamento. Sensação de não-pertencimento. Depressão. Burn out. Uso de drogas. Cada vez mais se fala sobre as consequências de dores não-tratadas, principalmente entre crianças e jovens – na mídia, no cinema, nos programas e seriados de TV. São questões particularmente agudas neste período de transição da infância para a idade adulta, da idade de dependente para a idade de responsável, de pessoa subordinada à tomadora de decisão.

Entender esse universo traz resultados positivos para os alunos, sobretudo para sua saúde mental e na vida social. Hoje, a importância da escola aumentou e, consequentemente, a do professor. Após a publicação do livro Inteligência Emocional, do psicólogo e pesquisador Daniel Goleman, muitas escolas nos Estados Unidos e na Europa já incluem o aprendizado social e emocional em seus currículos. Estudos têm demonstrado que ensinar as crianças a desenvolver uma regulação saudável das emoções as ajuda a aprender. Um experimento recente numa escola pública, para crianças em idade pré-escolar, encontrou efeitos significativos na função executiva, no autocontrole e no comportamento pró-social. A educação emocional pode gerar uma revolução social, disse o psicólogo e educador australiano Richard D. Roberts, em entrevista para a revista Época, em setembro de 2015.

No Mind and Life Institute, organização na qual Dalai Lama é cofundador, há reuniões de neurocientistas, psicólogos e educadores para estudar o que a ética secular pode ocasionar.  No centro da sua resposta até o momento, há o reconhecimento de que nosso instinto de cuidado é a base do sentimento moral e de que nosso desenvolvimento social e moral é definido por três categorias principais de cuidado: o que recebemos dos outros, o que estendemos aos demais e o cuidado de si.

Depende de nós

Para todas as categorias e para todos os cenários, há alguns ingredientes em comum, entre eles a compaixão. No livro Um Coração Sem Medo, Thupten Jinpa diz – “quando tornamos a compaixão a base de nossa intenção consciente para estruturar a sociedade, passamos a nos preocupar com o conceito de humanidade e alívio do sofrimento (...) Para mim, a compaixão é a chave para uma vida repleta de significado (...) Depende de nós viver a vida com compaixão: só precisamos estabelecer um relacionamento conosco, com os outros e o mundo a partir de um ponto de vista da compaixão, compreensão e bondade”.  No documentário Happy, Michael Pritchard enfatiza - “a compaixão leva à felicidade”.

Fazer com que esses ingredientes se tornem mais presentes, constantes e equilibrados no nosso cotidiano beneficia a todos – agora e no futuro. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a partir de 2020, o maior gasto em saúde do mundo será com doenças mentais – crises de ansiedade, depressão, síndromes relacionadas ao esgotamento emocional - pânico, burnout etc. Será que não podemos ajudar a reduzir esses números? Talvez ensinar aos jovens que temos que ser mais reais sobre nossas emoções seja o caminho.

Andreza Taglietti / andreza.soha@gmail.com