Saúde Mental

O mundo pelas nossas lentes

Por Andreza Taglietti

Independentemente do lugar e da época, algumas coisas não mudam. Nossas ações são decorrentes de reflexos profundamente arraigados originados de uma necessidade de protegermos nós mesmos e o que é importante para nós – família, trabalho etc. Em busca desse abrigo (físico, material e emocional), no dia a dia, a nossa tendência é recorrer à mentalidade de um soldado em guerra. Usamos classificações como “certo” e “errado”; “amigo” e “inimigo, “herói” e “vilão”. Em todos os ambientes, somos soldados de plantão. No esporte, no trabalho, na política, no trânsito. E isso tem grande influência em diversos aspectos de nossas vidas – molda nossa forma de pensar, nossa saúde, nossas relações, o que consideramos justo ou ético.

Não fazemos de propósito. As tendências inconscientes, os nossos desejos e os nossos medos moldam a forma como interpretamos informações, tomamos decisões, demonstramos sentimentos e comportamentos. Algumas ideias parecem ser nossas aliadas e gostamos de defendê-las. E outras são nossas inimigas. E queremos acabar com elas. Mas essa inconsciência é assustadora, podemos achar que somos justos e objetivos e, ainda assim, prejudicamos pessoas que estão ao nosso redor e a nós mesmos. Temos o hábito de colocar rótulos em grupos sociais ou situações e perdemos oportunidade de vivenciar momentos que poderiam nos trazer aprendizado e amadurecimento.

Formamos nossa mentalidade em três níveis: conforme criamos e mantemos crenças sobre o mundo, sobre os outros e sobre nós mesmos. E se fizermos o exercício de tentar abandonar nossa mentalidade de soldado? Podemos começar a observar a maneira como processamos as informações e os acontecimentos, e a forma como lidamos com isso. Podemos avaliar as situações, entender, identificar possíveis e reais obstáculos. Mas sem jugar pessoas e histórias, passando por cima dos nossos preconceitos e vigiando nosso tentador hábito de ficar na defensiva o tempo todo.  Podemos apenas entender a realidade da forma mais franca e precisa possível, mesmo que ela não seja bonita, conveniente e agradável. E podemos fazer isso sem julgar, sem rotular, sem colocar a culpa no outro “que agiu errado”.

O que mais ansiamos - defender nossas próprias crenças ou ver o mundo da forma mais clara possível? Se transformarmos nossas relações num processo dinâmico, no qual somos enriquecidos e enriquecemos os outros, sentiremos entusiasmo de nos envolvermos e nos conectarmos com as pessoas. Exercitaremos nossas habilidades criativas de forma proativa e, dessa forma, somos capazes de manter um estado de espírito estável e feliz. A vida não é um jogo no sentido da competitividade. E sim um jogo no verdadeiro sentido da palavra: uma atividade repleta de diversão e oportunidades criativas. Ninguém perde quando nós criamos juntos. Ninguém perde quando nós participamos e inovamos com os outros.  

Podemos fazer uma investigação interna, refletir e compreender as crenças que sabotam nossas vidas. Podemos aprimorar nossas capacidades pessoais, sermos flexíveis e leves, remodelarmos nossos pontos de vista. À medida que fazemos esse trabalho interior, notamos uma mudança natural e significativa na nossa mentalidade. Uma das importantes ferramentas nesse processo é a meditação. E ainda falaremos bastante sobre ela por aqui. Acompanhe.

Fontes para o texto:

Palestra TED Juia Galef - Why you think you're right -- even if you're wrong

Livro Mind Sets, Mike George

Crédito da foto: Warren Wong

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Os caminhos da inteligência emocional

Andreza Taglietti

A inteligência emocional não é suficiente sem uma base ética.  Na busca de uma aspiração elevada e altruísta, trabalhar diariamente nossa intenção nos ajuda nesse sentido, porque exclui o que não está alinhado a nossos valores. É importante olhar para o que surge de dentro para fora e adotar uma prática frequente de questionamento - nossa agenda reflete nossas preferências? Está coerente com nossos valores? Temos o hábito de revisitar nossos propósitos? Como isso reflete no nosso entorno (família, colegas de trabalho, amigos etc)? Conseguimos entender quais impactos que nossas atitudes e decisões geram nas outras pessoas e em nós?

Se realizado de forma constante e honesta, esse exercício nos permitirá cultivar uma atenção maior à felicidade e ao sofrimento que engendramos por meio dos nossos atos, de nossas palavras e de nossos pensamentos. Para Matthieu Ricard*, “existem aqui dois fatores determinantes: a motivação e as consequências dos nossos atos (...) Sempre temos a escolha de adotar uma motivação altruísta e de nos empenharmos para ajudar a criar um resultado positivo. Dessa maneira, é preciso examinar incessantemente a nossa motivação, como diz o Dalai Lama: “Estamos agindo com a mente aberta ou com uma mente pequena? Levamos em consideração a situação geral ou estamos vendo somente algumas especificidades? Vemos as coisas a curto ou a longo prazo? [...] A nossa motivação é genuinamente compassiva? [...] A nossa compaixão está limitada apenas às nossas famílias, aos nossos amigos e àqueles com quem nos identificamos? [...]. O núcleo essencial da ética é, portanto, o nosso estado mental e não a forma que tomam as nossas ações”.

Ética, aspiração, propósito, valores. Não há consenso sobre esses conceitos num mundo multicultural, subjetivo, líquido e flutuante como o nosso. Temos responsabilizado as redes sociais, as crises globais, o descaso pela educação, os líderes. Mas isso sempre aconteceu, em várias sociedades e em diversos contextos. Há muitos exemplos nas mitologias, nas religiões, nas sociedades medievais - sempre houve situações conflituosas que testavam e questionavam os limites da ética e valores como lealdade e honestidade. Nesses histórias e narrativas, modernas ou antigas, a inteligência emocional está presente, mas muitas vezes inserida num contexto de manipulação, controle e abuso.  

Os cientistas têm se interessado por esse uso não-ético da inteligência emocional.  Um estudo de 2013 revelou que aqueles que tendiam a explorar os outros para ganho pessoal também eram bons em ler as emoções, especialmente as negativas. Uma pesquisa de 2011 indicou - pessoas que têm mais consciência de como regular as emoções e que mostram uma tendência a manipular os outros para ganho pessoal são mais propensas a se engajar em ações desviantes, como envergonhar publicamente alguém no trabalho.

Em 2010, um grupo de cientistas descobriu que indivíduos que demonstraram certos traços narcísicos (em essência, um padrão generalizado de grandiosidade, autofoco e auto-importância) passaram boas impressões iniciais para seus pares, usando humor e expressões faciais encantadoras. Isso quer dizer que as pessoas movidas por interesses próprios são mais talentosas em influenciar e ganhar o apoio dos outros.

Além das constatações citadas acima, vale destacar também outros pontos observados por estudiosos e pelos profissionais da área de Saúde Mental sobre o lado não-ético da inteligência emocional, e um exemplo é o uso da empatia. Para o psicólogo Paul Gilbert, ela não implica necessariamente bondade ou altruísmo. A empatia também torna possível a tortura, ressalta Gilbert. Sem empatia, um torturador não teria nenhum conceito do sofrimento que ele está causando. Ele sabe a dor que está causando justamente porque ele é capaz de desenvolver um alto grau de empatia e tem a habilidade de "colocar-se nos sapatos de outra pessoa".

Ser persuadido, motivado e influenciado por outros pode ter um lado positivo - contanto que resulte em um comportamento consistente com nossos valores. Se isso não acontecer e se descobrirmos que fomos enganados ou manipulados, podemos tentar entender nossas vulnerabilidades daquele momento (por que deixamos a porta aberta da nossa casa para a pessoa entrar?) e procurar ferramentas para regular nossas emoções.

Com o cultivo da autocompaixão, da compaixão e com a prática da meditação e da observação, ampliamos a autoconsciência e o estado de vigilância dos nossos pensamentos e das nossas ações. Isso nos ajuda a evitar que nos tornemos escravos de nossos sentimentos, mesmo quando um manipulador habilidoso trabalha duro para explorá-los. Dessa forma, desenvolvemos e aperfeiçoamos nossa própria inteligência emocional, evitando agir de uma maneira que não seja do nosso interesse ou que esteja em conflito com nossos valores e princípios, evitando ou diminuindo episódios de arrependimento.

Matthieu Ricard nos lembra - “A ética prática deve levar em conta, com visão interior e compaixão, todos os prós e contras de uma dada situação (...) É grande a dificuldade de pô-la em prática, porque ela transcende o recurso cego e automático ao texto da lei e aos códigos morais. Portanto, também é grande o risco que corre de ser distorcida ou manipulada. De fato, essa ética requer um tipo de flexibilidade que é, em si, uma fonte de perigo. Se for cooptada pelo egoísmo e pela parcialidade, pode ser explorada para fins negativos que vão contra os seus objetivos iniciais. Daí a necessidade, para todos e em especial para aqueles que exercem a justiça, de desenvolver a sabedoria e uma profunda preocupação com o bem-estar dos outros”.

 

Fontes para o texto:

* Felicidade, A prática do bem-estar - Matthieu Ricard

**Artigo da Time - http://time.com/5300642/dark-side-emotional-intelligence/  

Foto Saray Jimenez

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Autocompaixão: conhece-te a ti mesmo; ocupa-te de ti mesmo

O hábito de experimentar amor e ternura por nós mesmos

Por Andreza Taglietti

A autocompaixão conecta o desejo interior de estar saudável e feliz. Se nós nos ocupamos de nós mesmos, damos início a um amadurecimento e a um crescimento psicológico, com mais consciência, mais sabedoria e mais amor – por nós e pelos outros. Certamente vamos querer mudar os padrões de conduta, mesmo que isso signifique renunciar a certas coisas que gostamos ou que temos apego.

No livro Self Compassion, Kristin Neff fala sobre o esforço puro e prolongado (definição de Buda) como qualidade motivadora da autocompaixão. Provém do desejo natural de curar o sofrimento, solucionar o problema, e não é o resultado de um comportamento egoísta. E podemos ser amáveis e sensíveis nesse caminho de aprendizado e de mudança. Podemos reconhecer que a vida é dura, que os desafios fazem parte da experiência humana. Por sorte, a amabilidade e o apoio criam sentimentos positivos e nos ajudam a seguir nessa busca diária pelo cultivo da autocompaixão.

Essa passagem do livro pode ser automaticamente associada à filosofia grega (e aos estudiosos dessa filosofia, como o francês Michel Foucault). No conselho do Oráculo de Delfos aos antigos gregos, “conhece-te a ti mesmo” é considerado o marco inicial da longa trajetória da humanidade rumo ao autoconhecimento. Conhecer-se é o ponto de partida para uma vida equilibrada e, por consequência, mais autêntica e feliz. Nessa visão, maturidade não é um desdobramento natural do tempo vivido, e sim resultado da vontade, do esforço de cada indivíduo em conquistá-la. 

Em Apologia de Sócrates, Sócrates (por meio de Platão) é o encarregado pelos Deuses de lembrar e incentivar os homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Ao proclamar o cuidado de si em Atenas, ele abre mão de uma série de situações consideradas vantajosas, como fortuna e cargos de poder e que, agindo assim, conseguiu despertar, pela primeira vez, os cidadãos de Atenas de um profundo sono. Portanto, o cuidado de si é a realidade mais admirável, pois proporciona algo equivalente a uma vida consciente, ativa e desperta.

Quando o “conhece-te a ti mesmo” surge na filosofia, precisamente com Sócrates, aparece como uma aplicação particular de uma regra mais geral: o cuidado de si. Ocupar-se consigo mesmo é condição para governar os outros, reflete no nosso externo - nosso entorno, nossa vida em sociedade e nossas relações. Quando fazemos o exercício de nos cuidarmos e nos olharmos, abrimos espaço para reflexões importantes como: que qualidades do coração e da mente queremos fomentar e nutrir em nós mesmos e levarmos para o mundo?  De quais qualidades da mente ou comportamentos gostaríamos de nos libertar?

A segunda questão não pode ser negligenciada. Ao longo da nossa jornada diária há obstáculos que nos bloqueiam, porque são acompanhados de tristeza, traumas, frustrações, emoções negativas. Mas, se há sofrimento, precisamos reconhecer que ele existe. E a autocompaixão primeiramente requer que tomemos consciência dele e dos hábitos que obstruem nosso próprio bem-estar. Também nos conduz a um comportamento proativo (em lugar de passivo) para melhorar a situação pessoal. Ter compaixão por si mesmo não significa crer que “os meus problemas são mais importantes que os seus”, mas sim pensar que os meus problemas também são importantes e requerem a MINHA atenção (e não a dos outros). Ou seja, mais uma vez, o ponto de observação e consciência é “preciso me ocupar de mim mesmo”.

A autocompaixão é um presente precioso ao alcance de qualquer um que esteja disposto a se descobrir. Quando desenvolvemos o hábito da bondade interior, o sofrimento se converte em uma oportunidade para experimentar amor e ternura com nós mesmos. Não importa quão difícil estejam as coisas. Podemos acalmar e consolar nossa própria dor, por meio de um genuíno cuidado com nós mesmos. Não precisamos de ninguém para nos brindar com calor e compaixão para nos sentirmos dignos de amor. Não temos que buscar fora de nós a aceitação e a segurança que desejamos. Quem pode saber melhor que você como se sente abaixo dessa fachada alegre? Quem conhece melhor o alcance da dor e do medo que você enfrenta, quem sabe melhor do que você o que você necessita? Quem é a única pessoa da tua vida que está disponível por 24 horas do dia e sete dias da semana para te proporcionar amor e acolhimento? Você. 

Somos merecedores de carinho e atenção. A autocompaixão é uma poderosa ferramenta para conseguir cultivar as causas do nosso bem-estar e da nossa satisfação pessoal. Ao brindarmos com nós mesmos afeto e consolo incondicionais, aceitando ao mesmo tempo a experiência humana, por mais difícil que seja, evitamos condutas negativas como o medo, a negatividade e o isolamento. Ao mesmo tempo, fomenta estados mentais positivos, como a felicidade e o otimismo.

Texto com base no livro Self Compassion, de Kristin Neff

Foto: Sharon McCutch

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Ocitocina: hormônio do amor que contribui para o nosso equilíbrio emocional

Por Dr. Ricardo Balsimelli

A ocitocina (ou oxitocina) é um hormônio produzido no cérebro e tem um papel muito importante na saúde física e mental do indivíduo, desde quando ele está na barriga da mãe até a vida adulta. Conhecida como hormônio do amor ou hormônio do aconchego, está vinculada ao sistema mamífero de cuidado, à linguagem amorosa, às emoções positivas e promove fortaleza do sistema imunológico.

Nas fases de gestação, parto e amamentação, a ocitocina normalmente é produzida pela mulher de forma natural, o próprio organismo faz esse trabalho. O hormônio promove a ligação entre mãe e filho. Por meio dos cuidados que recebe e a partir das primeiras experiências em cada etapa, o bebê passa a reconhecê-la como fonte de conforto, cria memórias emocionais de afeto, de segurança e de tranquilidade e não as esquece mais.

“O guru que me ensinou o valor da compaixão foi minha mãe. O primeiro ato depois do nascimento é depender da mãe e tomar seu leite. Na ocasião, você nem tem ideia de quem é aquela pessoa, mas simplesmente se agarra ao peito dela. Do lado da mãe, há um tremendo senso de carinho, afeição e compaixão. O vínculo e a proximidade entre a mãe e o filho – não são de lei ou de religião, são da natureza”, disse Dalai Lama em depoimento no documentário Happy.

Mas a ocitocina não é exclusiva das mães e/ou das mulheres. Os homens também a fabricam. Ela nutre a todos nós no longo prazo, pois está relacionada à linguagem de aproximação e de conexão. Afeta nossa personalidade, sobretudo nossa maneira de estabelecer relacionamentos nos diversos ciclos da vida. Age como um neurotransmissor, regulando nosso comportamento de interação social. É associada a sentimentos de proximidade e contentamento e contribui para nosso equilíbrio emocional.

Essa regulação das emoções acontece porque, à medida que vamos crescendo, segundo pesquisadores, nossa capacidade de nos acalmar vai se desenvolvendo a partir de nossas primeiras experiências. Trata-se de um processo de lembrança emocional, por assim dizer - um “cobertor de segurança” para situações de estresse. Se nossas primeiras experiências não foram tão ideais assim, precisamos construir aquela sensação de dor e segurança na idade adulta. Não podemos mudar nossos pais nem nossas experiências de infância, mas, quando adultos, podemos aprender diferentes maneiras de regular nossas emoções para lidar com os outros. E conosco. Portanto, seguindo a estratégia de “criar um cobertor de segurança para situações de estresse”, é importante lembrar que o estímulo de produção de ocitocina na infância influencia fortemente nosso limiar de autocompaixão e autoconfiança na idade adulta.

Podemos aprender a regular hormônios de bem-estar e segurança como a ocitocina. Hoje já se sabe que, ao perceber sensações de toque, carinho e conforto, nosso corpo a fabrica, seja em mulheres ou homens. Uma maneira de estimular nosso organismo a produzi-la é estar perto de pessoas de quem gostamos e amamos, e compartilhar momentos agradáveis com elas.  O amor nos faz sentir seguros e confiantes (em parte, porque favorece a produção de ocitocina, uma retroalimentação amor-confiança/segurança - ocitocina-amor). Quando experimentamos sentimentos carinhosos e ternos/dóceis, não somente mudamos nossa mente, mas também nosso corpo. Em vez de nos sentirmos preocupados e ansiosos, nos sentimos tranquilos, satisfeitos, confiantes e seguros. E nos tornamos disponíveis - nesse estado de bem-estar, conseguimos olhar para nós mesmos e para os outros por meio do amor e da compaixão. Entender as vulnerabilidades, criar empatia, acolher, talvez ajudar. E, dessa forma, ativar espontaneamente nosso sistema mamífero de cuidado.  

 

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Os jovens – suas cores e suas dores Por Andreza Taglietti

O que tento ensinar às crianças é que temos que ser mais reais sobre nossas emoções. A frase é de Michael Pritchard, um comediante que disse não aos holofotes de Hollywood e preferiu usar o seu talento no mundo real, conectando jovens e adultos (pais, educadores, pedagogos). O documentário Happy nos dá uma degustação do trabalho de Pritchard e nos mostra a ocasião em que ele divide o microfone, a narrativa e as atenções com os estudantes que estão ali para escutá-lo. Em determinado momento, o papel se inverte – Pritchard escuta; eles falam. Sobre suas vidas, seus desafetos, suas lutas diárias em ambientes que podem ser extremamente hostis para eles.

Os diversos vídeos de Pritchard no Youtube seguem a mesma linha: ele destina parte de suas palestras para os alunos se manifestarem. Há um ponto impressionante em comum em todos esses encontros: a capacidade que ele tem de deixar as crianças e adolescentes confortáveis ao exporem suas histórias em público. Para a surpresa de pais, pedagogos e professores, eles compartilham, de maneira corajosa, seus sentimentos, suas emoções, suas dores, seus traumas.

“Essa força de caráter para se levantar e se levantar por si mesmo e para ajudar os outros a tentarem ser mais compassivos - se pudermos aproveitar isso como um recurso para o mundo, essa apatia, essa negligência, essa indiferença, vai acabar. E esse é o começo da paz”, diz Pritchard. Numa linguagem simples e sincera, e também usando seus recursos de comediante, ele sensibiliza a plateia, estimula reflexões profundas e endereça mensagens importantes que acompanharão a trajetória de vida do indivíduo no longo prazo - “não importa o que a gente ensine para seus cérebros, o amor é mais importante que o conhecimento. A melhor coisa que podemos fazer por um jovem é ajudá-lo a aprender a amar”.

De forma geral, crianças e jovens são provocados, ridicularizados, excluídos e isolados. Por isso, é importante acompanhá-los, escutá-los atentamente, abrir e manter um canal de diálogo para saber e entender o que eles estão pensando e sentindo. É essencial criar um ambiente no qual se sintam confortáveis, em que eles tratem bem uns aos outros, reconheçam e acolham suas cores e suas dores. Sem julgamentos. Elas precisam ser divididas e respeitadas. “Nós ficamos doentes se tentamos conter toda a dor. E então a dor não tratada se transforma em raiva e a raiva se enfurece. E há duas direções, para a comunidade e para dentro – em direção ao eu e à autodestruição ”, diz Michael Pritchard.

A escola e as emoções

Armadilhas emocionais. Jovens mais vulneráveis e sem coragem de pedir ajuda. Isolamento. Sensação de não-pertencimento. Depressão. Burn out. Uso de drogas. Cada vez mais se fala sobre as consequências de dores não-tratadas, principalmente entre crianças e jovens – na mídia, no cinema, nos programas e seriados de TV. São questões particularmente agudas neste período de transição da infância para a idade adulta, da idade de dependente para a idade de responsável, de pessoa subordinada à tomadora de decisão.

Entender esse universo traz resultados positivos para os alunos, sobretudo para sua saúde mental e na vida social. Hoje, a importância da escola aumentou e, consequentemente, a do professor. Após a publicação do livro Inteligência Emocional, do psicólogo e pesquisador Daniel Goleman, muitas escolas nos Estados Unidos e na Europa já incluem o aprendizado social e emocional em seus currículos. Estudos têm demonstrado que ensinar as crianças a desenvolver uma regulação saudável das emoções as ajuda a aprender. Um experimento recente numa escola pública, para crianças em idade pré-escolar, encontrou efeitos significativos na função executiva, no autocontrole e no comportamento pró-social. A educação emocional pode gerar uma revolução social, disse o psicólogo e educador australiano Richard D. Roberts, em entrevista para a revista Época, em setembro de 2015.

No Mind and Life Institute, organização na qual Dalai Lama é cofundador, há reuniões de neurocientistas, psicólogos e educadores para estudar o que a ética secular pode ocasionar.  No centro da sua resposta até o momento, há o reconhecimento de que nosso instinto de cuidado é a base do sentimento moral e de que nosso desenvolvimento social e moral é definido por três categorias principais de cuidado: o que recebemos dos outros, o que estendemos aos demais e o cuidado de si.

Depende de nós

Para todas as categorias e para todos os cenários, há alguns ingredientes em comum, entre eles a compaixão. No livro Um Coração Sem Medo, Thupten Jinpa diz – “quando tornamos a compaixão a base de nossa intenção consciente para estruturar a sociedade, passamos a nos preocupar com o conceito de humanidade e alívio do sofrimento (...) Para mim, a compaixão é a chave para uma vida repleta de significado (...) Depende de nós viver a vida com compaixão: só precisamos estabelecer um relacionamento conosco, com os outros e o mundo a partir de um ponto de vista da compaixão, compreensão e bondade”.  No documentário Happy, Michael Pritchard enfatiza - “a compaixão leva à felicidade”.

Fazer com que esses ingredientes se tornem mais presentes, constantes e equilibrados no nosso cotidiano beneficia a todos – agora e no futuro. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a partir de 2020, o maior gasto em saúde do mundo será com doenças mentais – crises de ansiedade, depressão, síndromes relacionadas ao esgotamento emocional - pânico, burnout etc. Será que não podemos ajudar a reduzir esses números? Talvez ensinar aos jovens que temos que ser mais reais sobre nossas emoções seja o caminho.

Andreza Taglietti / andreza.soha@gmail.com

Atenção Plena – acredite na simplicidade do processo

Por Dr. Ricardo Balsimelli

 

Meditação é algo para ser experimentado. É prática. Uma experiência por dia. O objetivo do meditador é desenvolver consciência. Consciência do que quer que esteja ali. Consiste em experimentar os eventos da própria vida de maneira direta. Observar a vida se desenrolar momento a momento. Sem preconceitos. Sem julgamentos. Como fazer isso? Há muitas técnicas de meditação ao redor do mundo, mas hoje nos restringiremos à prática da atenção plena (mindfulness).

Primeiramente, é importante esclarecer que Mindfulness não é apenas uma técnica de relaxamento. Concentração e relaxamento são necessários. São precursores obrigatórios, ferramentas úteis e subprodutos benéficos. Mas a prática da atenção plena nos apresenta algo simples e grandioso ao mesmo tempo – a consciência e a transformação da vida cotidiana. Uma investigação e um experimento. Uma revolução interna. Uma revolução silenciosa. E libertadora.

E como essa revolução se inicia? Quando nos tornamos o centro observador de nós mesmos e do nosso entorno. Respiração. Corpo. Sentidos. Emoções. E o ciclo se reinicia. Simples assim. E no seu tempo. Não estamos competindo com ninguém. Não há um cronograma ou uma exigência de performance. Estamos numa jornada interna, cada um de nós, com um fuso horário particular e único. Cada pessoa ajustará e afiará as habilidades e entenderá as experiências individuais. Uma a uma.

E o que é ser o centro observador de nós mesmos?  É ficar ciente do que realmente somos. Observar sem a interferência da nossa formação nos dada ou conquistada até o momento (religião, família, classe social etc). Observar sem nenhuma inclinação. Uma investigação participativa em que cada um de nós observa as próprias experiências enquanto participa delas. Como se estivesse no cinema. Eu sou o espectador de um filme – meus pensamentos, meus humores, meus medos e minhas emoções. O centro observador diz – são só pensamentos (é só um filme).  Haverá momentos em que eu me revoltarei – não, isso não vai funcionar. Vai, sim. Basta acreditar na simplicidade do processo: respirar (uma âncora importante para restabelecer sua atenção); observar (percepção é fundamental); acolher (aceitação) as minhas emoções. E deixá-las ir embora. Como a sessão de cinema ou como uma chuva forte do fim de uma tarde de verão – começo, meio e fim. A impermanência das coisas. Mas isso é assunto para outro dia, em outro texto do blog.

 

Texto com base nos livros:

  1. Atenção Plena em Linguagem Simples; Bhante Henepola Gunaratana

  2. Atenção Plena Mindfulness; Mark Williams e Danny Penman

Saúde mental: respiração, observação e meditação

Por Dr. Ricardo Balsimelli

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Gostaríamos de propor uma reflexão: estamos realmente presentes em tudo que fazemos no nosso cotidiano? Qual a qualidade da nossa presença nas atividades do dia-a-dia? Quantas vezes nossa mente é sequestrada pelas preocupações diárias e fazemos as coisas no “piloto automático”? Conseguimos não pensar no futuro? Porque estamos sempre nos julgando e achando que poderíamos ter feito algo diferente numa determinada situação que já passou? Estamos atentos aos nossos sentimentos e às nossas emoções que nos sequestram do momento presente?

Com o nível de cobrança e estresse em que vivemos, tudo isso é muito comum. Nenhum de nós consegue controlar os pensamentos que assolam a mente. Com o passar dos anos, pode se agravar à medida que damos mais poder ao piloto automático. Hábitos desencadeiam pensamentos que, aliados a sensações negativas, podem amplificar suas emoções. Antes que a gente perceba, o estresse, a ansiedade e a tristeza tomam conta das nossas vidas.  E o que aconteceu com o gosto e com o prazer pelas coisas? Na correria diária, eles desaparecem. A desatenção tem um preço.

Mas como mudar esse padrão? O primeiro estágio para recuperar a atenção e trazê-la para o presente é – reaprender a se concentrar em uma coisa de cada vez e treinar a mente para isso. O segundo passo é dissolver hábitos que condicionam nosso comportamento.

Quer tentar? Vamos lá.

A forma mais fácil de começar essa mudança é prestar atenção na sua respiração – ela prende você no aqui e agora e monitora seus sentimentos. Quando você consegue perceber claramente se sua respiração está curta ou longa, superficial ou profunda, tensa ou tranquila, começa a sentir os próprios padrões internos e escolher como agir para melhorar o seu estado. É uma âncora para sua atenção, mostrando quando sua mente se dispersou, quando está entediada ou inquieta ou quando você está triste. É a forma de fazer contato consigo mesmo durante o dia. Você adquire mais consciência quando respira de forma atenta. E, estando mais atento, você observa e reconhece seus pensamentos e sentimentos. E consegue se relacionar melhor com eles. Afinal, são “apenas” pensamentos. Eles vão passar.

Todo esse processo tem um nome e provavelmente você já ouviu falar dele: mindfulness (ou meditação da atenção plena), cujos benefícios são cada vez mais visíveis nos diversos contextos da sociedade (profissional, pessoal, terapêutico etc): concentração/foco, segurança, redução de estresse e ansiedade; tratamento de compulsões, melhora nos relacionamentos interpessoais etc. Ajuda também a identificar e entender sentimentos que ameaçam nosso sistema de funcionamento (físico, mental e emocional) – ansiedade, raiva, frustração, insegurança etc.

Nesse processo, é muito importante olhar e cuidar da saúde mental - parte fundamental para qualquer indivíduo que busca equilíbrio, qualidade de vida e bem-estar. Se cuidamos da nossa mente, estaremos cuidando da relação com o nosso corpo também – ele é extremamente sensível às menores centelhas de emoção que percorrem a mente. Faz bem para o indivíduo (nós) e nosso entorno (família, amigos etc). E a meditação é o primeiro passo e um dos mais importantes neste contexto. Para quem quer começar essa prática e não sabe por onde, um dos métodos mais eficazes é o mindfulness.

O mindfulness é um assunto muito amplo e há várias ramificações e abordagens (compulsões, doenças crônicas, autocrítica, educação, compaixão etc) que serão aprofundadas aqui no nosso blog. Não deixe de acompanhar nossos posts. E fique à vontade também para sugerir temas e esclarecer dúvidas, pelo email clinicasoha@gmail.com.