Ayurveda

Cuide melhor do seu sono

* Por Ricardo Balsimelli

Por que você tem insônia? A ciência médica moderna demonstra que existem hormônios no organismo que possuem ciclos cartesianos de atuação, e eles variam no decorrer do dia e da noite. O cortisol, fabricado pelas glândulas suprarrenais, tem sua concentração máxima ao amanhecer. Quando o Sol se põe, a fabricação desse hormônio é reduzida, induzindo ao descanso orgânico. E então é a vez da melatonina – produzida pela glândula pineal e aumenta no início da noite. Quando ela chega a um certo nível, o corpo tende a esfriar e é induzido ao sono. Entretanto, a vida moderna retarda os mecanismos do organismo e não deixa esse processo natural acontecer. E é por isso que você tem insônia.

Mas você não está sozinho. Noites em claro são queixas frequentes em consultas médicas e geram uma queda importante na qualidade de vida de muitas pessoas. E a má notícia é – se você não começar a cuidar melhor do seu sono agora, a qualidade dele só tende a piorar.

O Ayurveda pode te ajudar a ter dias mais agradáveis e noites mais tranquilas. Como? Primeiramente, realize o máximo de atividades durante o dia, incluindo exercícios físicos. Quanto mais energia gasta de manhã e à tarde, mais preparado o corpo estará para o descanso noturno. É fundamental também estabelecer uma rotina antes de dormir. E ela já começa assim que o Sol se põe. Neste momento, já tente diminuir o volume de Tvs, rádios, devices. Na maior parte da semana, evite frequentar locais barulhentos e agitados. Opte por um jantar leve, de fácil digestão. Alimentos crus e proteínas animais não são aconselháveis para as refeições realizadas após 18 horas. Reduza ou elimine a ingestão de cafeína, estimulantes, adoçantes, bebidas muito geladas e álcool. Opte pelo silêncio ou ouça uma música harmônica, relaxante e suave.

Uma hora antes de dormir, desconecte-se do celular, mídias sociais etc. Tente ir para a cama no mesmo horário todas as noites (por volta das 22 horas) ou, pelo menos, cinco noites da semana. Faça a higiene do sono – algumas respirações profundas para relaxar. Tranquilize a mente, inspire, expire, medite, diminua o fluxo de pensamentos. Tente nutrir a paz interna.

A aromaterapia também auxilia e pode ser aplicada na forma de incensos, essência aromáticas, sabonetes, sachês e óleos aromáticos. Algumas gotas de óleo de lavanda no travesseiro ajudam a relaxar. Outras indicações são almíscar, cravo, hortelã, lótus, mirra, patchouli, sândalo, alfazema, flor de laranjeira (neroli) e ylang-ylang.

Em alguns casos podem ser associados suplementos a base de vitaminas e plantas (fitoterápicos) para ajudar a ter uma noite tranquila. A acupuntura também contribui para a boa qualidade do sono, modulando neurotransmissores que induzem e aprofundam o estado de relaxamento.

Para finalizar, deixo aqui algumas receitas ayurvédicas que usam ingredientes naturais e podem ser inseridas na sua rotina noturna:

  • Uma colher de mel antes de dormir (quanto mais puro, melhor) 
  • Chás calmantes – erva-cidreira, camomila, sálvia (clary sage) 
  • Algumas gotas de Valeriana
  • Acariçoba - cinco folhas no leite antes de deitar
  • Gel de babosa, com gengibre e óleo de gergelim, aplicado na cabeça antes de dormir

 

Texto com base no livro Ayurveda, A Ciência da Longa Vida – Dr.Edson D´Angelo e Janner Rangel Côrtes.

Crédito da foto: Tracey Hocking

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Chegou o Inverno – que tal se cuidar com muito carinho, dosha Kapha?

Ricardo Balsimelli

Nos dias úmidos e frios de inverno, o dosha Kapha entra em desequilíbrio. Por isso, é importante se manter quente, ativo e não se esquecer dos cuidados com a alimentação. Escolha alimentos cozidos e aquecidos, buscando um equilíbrio entre os sabores amargo, adstringente e picante (pimenta). Estimule a capacidade digestiva com chás quentes e temperos aquecedores, principalmente aqueles que ajudam no funcionamento do fogo digestivo (*agni) e favorecem vitalidade e energia – gengibre, canela, cominho. Eles também podem ser consumidos pela manhã, em jejum, com meia xícara de água morna. Evite itens crus, demasiado adocicados, comidas frias, refrigeradas, processadas e/ou congeladas. Limite também o consumo de sal para diminuir a retenção de líquidos – tendência e característica do Kapha.

No que diz respeito ao sistema imunológico, um dos principais desequilíbrios Kapha nesta estação são as infecções respiratórias - tosse, constipações, congestão nasal, sinusites. Além dos cuidados com a alimentação e a **limpeza diária das narinas, procure realizar atividades físicas que contribuam para uma melhora nesse quadro – caminhada, corrida, bicicleta, natação. Os praticantes de Yoga, por exemplo, podem incluir ou intensificar na sua rotina matinal posturas que abram o peito, garganta e seios nasais. Quando a temperatura estiver muito baixa, os exercícios devem ser praticados em ambientes internos e aquecidos. Mantenha o sono regular e evite dormir ao longo do dia. No fim do dia, você pode fazer uma compressa quente e seca nas costas para ajudar a esquentar o corpo.

No inverno, há uma tendência maior à melancolia, ao isolamento e aos sentimentos de tristeza. Em dias úmidos e chuvosos, a paisagem cinza e o frio nos convidam a ficar em casa, o que pode contribuir para a preguiça e a inércia, desequilíbrios do Kapha. Por esta razão, procure estar com pessoas que façam você se sentir bem e proporcionem momentos de diversão. Se o Kapha estiver desequilibrado (estático, lento), é importante fazer algo diferente, improvisado e novo no dia, para gerar estímulos saudáveis e sair da letargia e da imobilidade – características desse dosha. Diga sim para a variedade, para a alegria e para novas experiências.

Busque um equilíbrio entre a vida social e um tempo para você. Nos momentos em que estiver em casa, escolha uma música alegre, faça uma limpeza, abra seus armários, tire tudo que é velho. Identifique aquilo que já serviu e não serve mais. É hora de limpar e dar espaço para o novo da próxima estação - um ritual que ajuda a limpar a casa e as emoções. A meditação também pode contribuir para essa abertura e para essa ampliação da consciência.

E lembre-se - o inverno é uma estação Kapha (água e terra), com algumas características de Vata (elemento ar, seco e frio). Por isso também é importante estar atento ao equilíbrio desse dosha, confira aqui:

https://www.clinicasoha.com/blog/2018/4/2/estamos-no-outono-e-agora-dosha-vata

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*Sobre o agni: https://www.clinicasoha.com/blog/2018/6/6/agni-responsvel-pela-nossa-capacidade-digestiva-e-pelo-nosso-metabolismo

**Sobre a limpeza diária das narinas: https://www.facebook.com/sohaacupuntura/posts/728395470678912

Foto: Dmitry Ratushny

Foto: Dmitry Ratushny

Agni – responsável pela nossa capacidade digestiva e pelo nosso metabolismo

Por Ricardo Balsimelli

Para o Ayurveda, um item importantíssimo para o organismo funcionar bem é o agni – ele é essencial para o corpo humano, correspondendo ao elemento fogo (que transmuta a matéria, convertendo madeira em pó, assim os antigos entendiam que teríamos um fogo interno transformando alimento em nutrientes e excretas). Corresponde ao Sol, à chama, à energia interna capaz de promover a percepção, a ação e a expressão, sendo estes os atributos da consciência humana.

Entre todos os agnis (temos até fogo no cérebro, transformando os estímulos visuais em impressões, de acordo com nossas crenças e vivências), o mais importante é o fogo digestivo - Jatharagni, termo que vem da raiz sânscrita que significa barriga, abdômen. Está relacionado com as enzimas digestivas do estômago e do intestino delgado. Ou seja, ele é responsável pela capacidade da nossa digestão e aparece em diferentes estágios no nosso organismo, dependendo do Dosha predominante:

  • Agni elevado – Pitta. Pessoas possuidoras de forte apetite e com boa capacidade digestiva, não ganhando peso com facilidade.
  • Agni baixo – Kapha. Possuidores de pouco apetite, mas constante. Baixo metabolismo que favorece o ganho de peso com facilidade.
  • Agni variável – Vatta. Apetite variável de acordo com o estado emocional, oscilando entre fome excessiva e a falta de apetite

Para manter o agni equilibrado, optamos por alimentos que contenham a natureza do fogo (quente), como temperos picantes – gengibre, pimenta-do-reino, cominho. É importante também perceber se o “fogo está aceso” durante e depois da digestão. E a recomendação aqui é a auto-observação. Como estou sentindo esse alimento – leve ou pesado? Quente ou frio? Como fico depois de uma hora da refeição – fiz digestão e estou leve? Ou percebo uma distensão abdominal e tenho sensação de peso?

Outro ponto a ser respeitado nesse processo é a necessidade de realizar a próxima refeição – estou realmente com fome? E, para o bom funcionamento do agni, o Ayurveda recomenda – espere ter fome para comer.  Para que essa energia interna atue de forma mais eficaz no nosso corpo, os tratamentos ayurvédicos também recomendam outros procedimentos, como jejum, panchakarma (veja link no fim do texto), massagens, sauna e exercícios de respiração (pranayamas). Eles também aumentam o fogo digestivo, ou seja, a capacidade do corpo de metabolizar e eliminar as toxinas (ama) acumuladas e presas nos tecidos.

Quando o agni é suficiente no organismo, as toxinas não permanecem no corpo. Os processos de assimilação, nutrição e absorção acontecem sem esforço. Doshas e emoções ficam em perfeita harmonia e equilíbrio. A mente e os sentidos se mantêm claros, estimulando para mudanças positivas no direcionamento da vida. O agni desequilibrado inibe o sistema imunológico e favorece o aparecimento de distúrbios de origem psicossomática. Provoca rigidez mental, peso estomacal, emoções negativas e deficiência nas percepções.

Portanto, um apetite moderado, regular, acompanhado de boa digestão, é sinal de boa saúde – física e emocional. As combinações corretas dos alimentos recomendadas pelo Ayurveda são fundamentais para esse quadro saudável e positivo. O Agni é uma força em constante mudança. Equilibrá-lo é uma tarefa diária e contínua, mas muito saborosa, eu te garanto.

*Texto com base no livro Ayurveda – a ciência da longa vida – Dr. Edson D´Angelo / Janner Rangel Côrtes

**Sobre o panchakarma - https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=710689105782882&id=280739755444488

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Estamos no outono. E agora, dosha Vata?

Como já vimos em posts anteriores, as condições da natureza impactam nosso bem-estar físico e emocional. Clima, condições geográficas e alimentação influenciam nosso humor.  E chegamos ao outono, uma estação que costuma ser seca e fria - características que começam a agravar o dosha Vata (elemento ar), composto pelos mesmos atributos do período (seco e frio). Dessa maneira, pessoas com esta constituição devem ter cuidados redobrados, prestar atenção na rotina e rever alguns hábitos diários.

Vamos começar então pela alimentação para Vata nesta época do ano - ela deve ser regular (a cada três horas), mais nutritiva, quente e úmida. Tente evitar alimentos crus e/ou frios no fim da tarde e à noite. No período da manhã, o ideal é começar a consumi-los (se sentir necessidade) a partir das dez horas. Dê preferência aos assados, cozidos e grelhados. Diminua a ingestão de itens picantes, amargos (verduras) e adstringentes (tofu, feijões, ervilhas). Busque os sabores doce, salgado e ácido – eles são benéficos para equilibrar o Vata nesta fase. Para evitar a secura (típica do Vata e do Outono), ao longo do dia, tome bastante líquido e opte por chás de erva-doce, camomila, canela e gengibre. Evite bebidas frias e/ou geladas.

As pessoas do tipo Vata têm tendência à pele mais seca e mais áspera neste período. Por isso, fique de olho no autocuidado. É importante receber massagens ou fazer automassagens, com o objetivo de hidratar os tecidos (por dentro e por fora), além de consumir bastante óleo nas refeições (principalmente azeite e gergelim). Se puder, antes de dormir, faça uma boa massagem na planta dos pés para que o sono seja profundo. A sauna úmida também é uma grande aliada nesse processo.

Para aqueles que sentem ressecamento das mucosas da narina, a orientação é pingar/aplicar na região duas gotas de ghee ou óleo de gergelim morno antes de dormir. E, ao acordar, recomendamos fazer a limpeza (Jala Netti) diária das narinas, toda manhã, de modo a mantê-las desobstruídas. Como? Separe um recipiente adequado (Lota ou conta-gotas) para introduzir água salgada morna (da temperatura do corpo) nas narinas. Acrescente um grama de sal (metade de uma tampinha bic) para cada 100 ml de água. Esse processo promove o descongestionamento da mucosa do nariz e estimula os canais energéticos localizados na coluna vertebral (Ida e Píngala), mantendo-os desobstruídos favorecendo a fluidez da energia vital (ojas).

Há também uma tendência do Vata se queixar de insônia e dor de cabeça. A recomendação aqui é contemplação, concentração e meditação. Desacelere, dê pausas regulares no trabalho e fique mais em silêncio. Tranquilize a mente, respire, diminua o fluxo de pensamentos. Tente nutrir a paz interna. Vata é agravado por sentimentos como medo, insegurança e pelo excesso de movimento. Busque atividades que reduzam a hiperatividade e que diminuam a ansiedade e o estresse, como meditação, yoga, passeios ao ar livre e contato com o Sol – ele promove a alegria, o que é positivo para as pessoas com esse dosha predominante, pois elas são propensas à angústia e à depressão quando em desequilíbrio.

A aromaterapia também auxilia a harmonia dos doshas e pode ser aplicada na forma de incensos, essência aromáticas, sabonetes, sachês e óleos aromáticos. No caso do Vata, algumas indicações são almíscar, cravo, hortelã, lavanda, lótus, mirra, patchouli, sândalo, alfazema, flor de laranjeira, ylang-ylang.

A nossa relação com a natureza é fundamental nos tratamentos do Ayurveda

Por Dr. Ricardo Balsimelli

Imagine que agora, neste momento, você está em Santos ou no Rio de Janeiro, cidades úmidas. E você tem uma amiga ou um parente passando por Brasília, região seca. E a queixa de vocês, no mesmo dia e mesmo horário, é igual -  dor de cabeça. Será que vocês devem receber o mesmo tratamento? Provavelmente não. De acordo com o Ayurveda, a saúde do indivíduo é influenciada por local (cidade; geografia), clima (estação do ano), alimentação e circunstância (emoções). Por isso, na hora de prescrever um tratamento a um paciente, além de se informar sobre o momento da sua vida, é fundamental investigar a geografia e o clima.

O ar de Brasília é seco e o Rio de Janeiro está localizado num território úmido. Dessa forma, o médico precisa levantar informações para entender o que desencadeou uma aparente inofensiva dor de cabeça e como isso está afetando o organismo do indivíduo. E provavelmente a localização e as condições climáticas são determinantes nesse processo, pois elas influenciam os doshas e a saúde humana.  

Vamos nos aprofundar um pouco mais no assunto? Como o entendimento da natureza e da relação do indivíduo com a natureza é fundamental no tratamento ayurvédico das doenças?

Em lugares áridos (jángalam*), desérticos e desprovidos de água, há a predominância do dosha Vata (ar + éter). As estações frias, secas e com vento, como o outono, tendem a agravá-lo, com isso causando secura dos tecidos, gerando contraturas e dor, nesse caso a dor de cabeça seria em aperto ou pressão. Evitar temperaturas excessivamente baixas e manter-se aquecido são ótimas recomendações para acalmar o Vata. Em geral, ele também sente alívio com saunas (úmidas e quentes).

Regiões com altas temperaturas agravam o dosha Pitta (fogo). O verão é o período mais difícil. O calor úmido pode facilmente causar desequilíbrio. A temperatura corporal aumenta, tornando-o mais suscetível às doenças e desequilíbrios relacionados a inflamação, nesse caso a dor de cabeça teria característica pulsátil. Emocionalmente, pode se sentir irritado, agitado e raivoso. A mente aguçada tende a se tornar hipercrítica e julgadora. Para acalmar tudo isso, o dosha Pitta precisa de ambientes frescos, alimentação e plantas medicinais refrescantes.

Ambientes úmidos (ánupam*), pantanosos e com excesso de água (ulbana*) são características do dosha Kapha (água + terra).  Já percebeu como sua pele fica mais úmida e “grudenta” quando você está em cidades como Rio de Janeiro, Santos ou Manaus? Isso acontece porque o Kapha está desequilibrado. O pior período do ano para o Kapha é o início da primavera, quando a umidade está alta e a temperatura é baixa. As dores de cabeça são relacionadas com os atributos da água como resfriados, rinites, sinusites e outras desordens envolvendo muco como, por exemplo, a bronquite. Emocionalmente, é retentor, pegajoso e “gruda” afetivamente. 

O equilíbrio (sama*) dos três doshas é encontrado no Sádhárana*  – terreno normal, nem tão úmido e nem tão árido. Mas isso não significa que o corpo está em plena harmonia. Existe uma dança dos doshas dependendo da região

Portanto, a recomendação de tratamento para dor de cabeça ou qualquer outra queixa do indivíduo deve ser tratada de maneira diferente, caso tenha relação com o clima do local geográfico (bhudesha*) e com a estação do ano. A orientação/prescrição do profissional e as dosagens dos medicamentos serão diferentes. A resposta da pessoa ao tratamento será impulsionada ou agravada pelo ambiente em que ele está.

Vamos fazer um rápido exercício e pensar num distúrbio de vata – ar + éter (seco, deserto, árido): lesões de pele por secura, como na dermatite atópica.

O que acontece?

- O ambiente úmido ajuda no tratamento. Cidades como Santos, Manaus ou Rio de Janeiro, o dosha Kapha predomina, ou seja, “empurra” e ajuda o vata.

- Lugares secos e áridos “empurram” a ter um agravamento de Vata. Os sintomas pioram, ou seja, a pele ficará mais seca e com descamações.

Secura, umidade, calor e frio do ambiente são relevantes e decisivas quando olhamos para nossos padrões de comportamento e organismo. Tente observar isso no seu dia a dia e procure saber como equilibrar essa equação. Em caso de dúvidas, entre em contato pelo email clinicasoha@gmail.com  ou pelas mídias sociais.

 

Você sabia?

Em sânscrito, a palavra ulbana também significa “a membrana que cobre o feto” – algo abundante, excesso, película que envolve e protege. Por isso, esse termo é atribuído ao dosha Kapha – uma abundância que cobre, envolve, como uma “gelatina”.

 

*Termos originais, em sânscrito, citados no Ashtanga Hrdayam (um dos três principais livros do Ayurveda, escrito há aproximadamente 1.500 anos, por Vagbhata, integralmente em versos). Trecho retirado da seção (sutrasthana) 1:23 - capítulo 1, segunda metade do verso/sloka 23 e primeira metade do verso/sloka 24.

Simplificando e desmistificando o Ayurveda

Por Dr. Ricardo Balsimelli

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Você sabia que as bases do Ayurveda são os cinco elementos da Natureza? E o que eles têm em comum com a ciência moderna?

Há cinco mil anos, não se conheciam os elementos que hoje constituem a tabela periódica. Imersos e observadores, os estudiosos da época perceberam que tudo era formado pelos elementos básicos da natureza, considerando-os fundamentais em tudo que compõe o planeta - terra, água, fogo, ar e espaço (ausência de matéria, vácuo). Eles se encontram misturados em diferentes proporções, tendo em sua estrutura as mesmas características dos elementos da natureza que os constituem. 

Para a ciência moderna, tudo que existe é formado pelos 118 elementos químicos da tabela periódica, como hidrogênio, oxigênio, carbono etc. Unidos, eles formam diferentes moléculas com estruturas e características específicas. Ao longo de anos de estudos, esses elementos foram isolados, sintetizados e manipulados de modo a serem usados na agricultura, nos remédios, na indústria, na medicina, entre outros. Ao investigar nosso corpo, a ciência descobriu também que o nosso metabolismo depende do trabalho das enzimas (grupos de substâncias orgânicas de natureza que têm funções catalisadoras, catalisando reações químicas que, sem a sua presença, dificilmente aconteceriam). Se fizermos um comparativo com o Ayurveda, não necessariamente temos fogo no corpo, mas o fogo (Ayurveda; natureza) é uma forma de representação da enzima (Ciência Moderna; elementos químicos).

 

Dessa forma, podemos trazer o Ayurveda para a nossa realidade e para o nosso dia-a-dia de uma maneira muito simples e fácil de se entender. Nas próximas linhas, explicarei como os antigos estudiosos chamavam de “elementos da Natureza” podem influenciar nos nossos aspectos físicos e mentais, de acordo com as características de cada um deles.

Elemento terra - é o de maior densidade. No ser humano, representa-se em maior quantidade nas estruturas mais sólidas como órgãos e tecidos, ossos, pele, unhas, cabelos. No aspecto mental, a terra traz as qualidades de estabilidade, segurança, confiança, inflexibilidade e rigidez.

Elemento água - mais fluídico. São os líquidos orgânicos como sangue; lágrima; saliva; linfa (parte do sangue que saiu dos vasos e passou pelos tecidos); líquido articular (protege as articulações); líquor (encontrado no sistema nervoso central); menstruação; leite materno; líquido amniótico (protege o feto na gestação) e sêmen. Em nosso corpo, a água tem o papel de proteção, nutrição e lubrificação das estruturas. Sendo assim, seu aspecto psicológico é acolhedor, gosta de nutrir as pessoas, receptivo, cuidador, menos racional e mais emotivo. Sentimentos como ciúme e inveja também são bem presentes nesse caso.

Elemento fogo - presente nas reações metabólicas e manutenção da temperatura do nosso organismo. Na natureza, o fogo transforma, por exemplo, a madeira em cinzas. Em nosso corpo, está relacionado com a digestão (transformação de alimentos em nutrientes e excretas), produção de energia e calor por meio da “queima” de nutrientes, visão (transformação do estímulo da luz em imagem). Psicologicamente, traz o entusiasmo, a alegria, a intensidade, o discernimento (separa o que é bom ou ruim), a raiva, a impaciência e a crítica.

Elemento ar - está na respiração, na porosidade dos ossos (para que sejam mais leves), no oxigênio que circula pelo sangue, e na formação de gases provenientes da digestão. Promove o movimento no corpo – o ar/vento é responsável por balançar os galhos das árvores, espalhar sementes, mover a areia das dunas. No aspecto psicológico, o ar rege os movimentos da mente, pensamentos, desejos (movimento por buscar o que quer), reflexão (movimento em busca de analisar e solucionar), insegurança (por ser de baixa densidade, leve, promove a sensação de “perder o chão”), fluxo de pensamento acelerado, agitação.  

Elemento espaço - presente entre os órgãos, vísceras, tecido conjuntivo (tecido de sustentação), gordura e etc. Mentalmente, representa o espaço entre um pensamento e outro, busca pela espiritualidade, busca pelo que está além do que nossos órgãos dos sentidos conseguem captar.

 

Ficou claro?

 

Agora imagina esses elementos presentes e misturados no nosso corpo.

 

Sim, é isso mesmo. Na natureza, esses elementos se misturam. Em nosso corpo também. Temos os cinco elementos em diversas proporções, promovendo uma estrutura física, mental e emocional diferentes uns dos outros.

Dentro dessas combinações, o Ayurveda percebeu uma grande afinidade por determinados elementos e o resultado  da união entre eles é conhecida como Doshas.

Com a união de terra e água, surge o dosha Kapha, com as características destes dois elementos, promovendo a forma do corpo, lubrificação, nutrição e proteção. Psicologicamente relacionado ao carinho, proteção, estabilidade, amabilidade, acolhimento, gosta de uma rotina bem estabelecida, sensibilidade, doçura, calma e pacifismo. Em casos de desequilíbrio (aumento de Kapha), temos uma produção excessiva de muco (asma, rinite e sinusite), edema (inchaço, excesso de líquido), sensação de peso, letargia, diabetes (excesso de “nutriente” - glicose), obesidade e tumores (excesso de células, excesso de matéria). Psicologicamente, pode apresentar depressão, ciúmes, inveja, tristeza, inércia, passividade, mágoa, rancor, inflexibilidade.

Da união de fogo e água, temos o dosha Pitta, com as características predominantes do fogo, apresentando poucos atributos do elemento água, que nesse caso aparecem como oleosidade da pele e couro cabeludo. Esse dosha está relacionado ao metabolismo e à digestão. Em equilíbrio, apresenta bom apetite e boa digestão, com sensação de leveza após comer, disposição para as atividades diárias, temperatura corporal em 36,5°C bem distribuída pelo corpo, uma boa constituição muscular. Psicologicamente são pessoas de alta produtividade e eficazes, corajosas e ávidas por desafios intelectuais e emocionais, propensas à liderança com boa oratória e influência sobre as pessoas.  Em desequilíbrio, esse dosha promove sensação de calor excessivo, queimação no estômago e refluxo ácido, processos inflamatórios (inflamação tem as mesmas características do fogo apresentando calor, vermelhidão, sensação de queimação, inchaço que corresponde ao elemento água) como gengivite, conjuntivite, tendinite entre outras. Psicologicamente, podem apresentar impaciência, raiva, fúria, irritabilidade, grande necessidade de controle e manipulação sobre as pessoas.

Finalmente temos Vata, proveniente da união dos elementos ar e espaço. Apresenta as características do vento, portanto move o corpo, tem relação com a circulação sanguínea, peristalse (movimentos do sistema digestivo), respiração (fluxo de entrada e saída de ar), fala (movimento do ar saindo do corpo), leveza das estruturas do corpo (se os ossos não fossem porosos seriam muito pesados), audição (o ar faz vibrar o tímpano e propicia o som). Psicologicamente, esse perfil tem boa criatividade (o ar buscando solução para problemas), facilidade para mudanças na rotina (o vento tende a ser irregular na natureza, ora soprando para um lado, ora para outro), gosta de viajar, conhecer culturas novas, desenvolver novas habilidades e aprender coisas. Em desequilíbrio, pode apresentar falta de ar, eructações (arrotos), cólicas por apresentar muitos gases no intestino, alteração na pressão sanguínea e batimento cardíaco, sinais e sintomas de secura no corpo (pois o vento seca, por exemplo, as roupas no varal mais do que o próprio sol) como secura nos olhos, boca, pele, vagina. Esse “secar” também promove redução do volume e da força dos tecidos, gerando unhas e cabelos fracos, perda de peso, perda de massa muscular e fezes ressecadas. Psicologicamente, está relacionado com estados de ansiedade (como um vendaval de pensamentos na mente que leva a atenção para o passado e futuro e não estabiliza no presente), falta de atenção (a mente se move como o vento e não consegue se fixar), insegurança e medo (por estar “leve”, perde a sensação de segurança da terra).

Interessante, não é mesmo? Todo esse conhecimento adquirido há milênios apenas observando e comparando nosso corpo com o que ocorre na natureza!

No próximo texto vamos falar sobre como podemos equilibrar esses elementos e doshas em nosso corpo.

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