O mundo pelas nossas lentes

Por Andreza Taglietti

Independentemente do lugar e da época, algumas coisas não mudam. Nossas ações são decorrentes de reflexos profundamente arraigados originados de uma necessidade de protegermos nós mesmos e o que é importante para nós – família, trabalho etc. Em busca desse abrigo (físico, material e emocional), no dia a dia, a nossa tendência é recorrer à mentalidade de um soldado em guerra. Usamos classificações como “certo” e “errado”; “amigo” e “inimigo, “herói” e “vilão”. Em todos os ambientes, somos soldados de plantão. No esporte, no trabalho, na política, no trânsito. E isso tem grande influência em diversos aspectos de nossas vidas – molda nossa forma de pensar, nossa saúde, nossas relações, o que consideramos justo ou ético.

Não fazemos de propósito. As tendências inconscientes, os nossos desejos e os nossos medos moldam a forma como interpretamos informações, tomamos decisões, demonstramos sentimentos e comportamentos. Algumas ideias parecem ser nossas aliadas e gostamos de defendê-las. E outras são nossas inimigas. E queremos acabar com elas. Mas essa inconsciência é assustadora, podemos achar que somos justos e objetivos e, ainda assim, prejudicamos pessoas que estão ao nosso redor e a nós mesmos. Temos o hábito de colocar rótulos em grupos sociais ou situações e perdemos oportunidade de vivenciar momentos que poderiam nos trazer aprendizado e amadurecimento.

Formamos nossa mentalidade em três níveis: conforme criamos e mantemos crenças sobre o mundo, sobre os outros e sobre nós mesmos. E se fizermos o exercício de tentar abandonar nossa mentalidade de soldado? Podemos começar a observar a maneira como processamos as informações e os acontecimentos, e a forma como lidamos com isso. Podemos avaliar as situações, entender, identificar possíveis e reais obstáculos. Mas sem jugar pessoas e histórias, passando por cima dos nossos preconceitos e vigiando nosso tentador hábito de ficar na defensiva o tempo todo.  Podemos apenas entender a realidade da forma mais franca e precisa possível, mesmo que ela não seja bonita, conveniente e agradável. E podemos fazer isso sem julgar, sem rotular, sem colocar a culpa no outro “que agiu errado”.

O que mais ansiamos - defender nossas próprias crenças ou ver o mundo da forma mais clara possível? Se transformarmos nossas relações num processo dinâmico, no qual somos enriquecidos e enriquecemos os outros, sentiremos entusiasmo de nos envolvermos e nos conectarmos com as pessoas. Exercitaremos nossas habilidades criativas de forma proativa e, dessa forma, somos capazes de manter um estado de espírito estável e feliz. A vida não é um jogo no sentido da competitividade. E sim um jogo no verdadeiro sentido da palavra: uma atividade repleta de diversão e oportunidades criativas. Ninguém perde quando nós criamos juntos. Ninguém perde quando nós participamos e inovamos com os outros.  

Podemos fazer uma investigação interna, refletir e compreender as crenças que sabotam nossas vidas. Podemos aprimorar nossas capacidades pessoais, sermos flexíveis e leves, remodelarmos nossos pontos de vista. À medida que fazemos esse trabalho interior, notamos uma mudança natural e significativa na nossa mentalidade. Uma das importantes ferramentas nesse processo é a meditação. E ainda falaremos bastante sobre ela por aqui. Acompanhe.

Fontes para o texto:

Palestra TED Juia Galef - Why you think you're right -- even if you're wrong

Livro Mind Sets, Mike George

Crédito da foto: Warren Wong

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