Os jovens – suas cores e suas dores Por Andreza Taglietti

O que tento ensinar às crianças é que temos que ser mais reais sobre nossas emoções. A frase é de Michael Pritchard, um comediante que disse não aos holofotes de Hollywood e preferiu usar o seu talento no mundo real, conectando jovens e adultos (pais, educadores, pedagogos). O documentário Happy nos dá uma degustação do trabalho de Pritchard e nos mostra a ocasião em que ele divide o microfone, a narrativa e as atenções com os estudantes que estão ali para escutá-lo. Em determinado momento, o papel se inverte – Pritchard escuta; eles falam. Sobre suas vidas, seus desafetos, suas lutas diárias em ambientes que podem ser extremamente hostis para eles.

Os diversos vídeos de Pritchard no Youtube seguem a mesma linha: ele destina parte de suas palestras para os alunos se manifestarem. Há um ponto impressionante em comum em todos esses encontros: a capacidade que ele tem de deixar as crianças e adolescentes confortáveis ao exporem suas histórias em público. Para a surpresa de pais, pedagogos e professores, eles compartilham, de maneira corajosa, seus sentimentos, suas emoções, suas dores, seus traumas.

“Essa força de caráter para se levantar e se levantar por si mesmo e para ajudar os outros a tentarem ser mais compassivos - se pudermos aproveitar isso como um recurso para o mundo, essa apatia, essa negligência, essa indiferença, vai acabar. E esse é o começo da paz”, diz Pritchard. Numa linguagem simples e sincera, e também usando seus recursos de comediante, ele sensibiliza a plateia, estimula reflexões profundas e endereça mensagens importantes que acompanharão a trajetória de vida do indivíduo no longo prazo - “não importa o que a gente ensine para seus cérebros, o amor é mais importante que o conhecimento. A melhor coisa que podemos fazer por um jovem é ajudá-lo a aprender a amar”.

De forma geral, crianças e jovens são provocados, ridicularizados, excluídos e isolados. Por isso, é importante acompanhá-los, escutá-los atentamente, abrir e manter um canal de diálogo para saber e entender o que eles estão pensando e sentindo. É essencial criar um ambiente no qual se sintam confortáveis, em que eles tratem bem uns aos outros, reconheçam e acolham suas cores e suas dores. Sem julgamentos. Elas precisam ser divididas e respeitadas. “Nós ficamos doentes se tentamos conter toda a dor. E então a dor não tratada se transforma em raiva e a raiva se enfurece. E há duas direções, para a comunidade e para dentro – em direção ao eu e à autodestruição ”, diz Michael Pritchard.

A escola e as emoções

Armadilhas emocionais. Jovens mais vulneráveis e sem coragem de pedir ajuda. Isolamento. Sensação de não-pertencimento. Depressão. Burn out. Uso de drogas. Cada vez mais se fala sobre as consequências de dores não-tratadas, principalmente entre crianças e jovens – na mídia, no cinema, nos programas e seriados de TV. São questões particularmente agudas neste período de transição da infância para a idade adulta, da idade de dependente para a idade de responsável, de pessoa subordinada à tomadora de decisão.

Entender esse universo traz resultados positivos para os alunos, sobretudo para sua saúde mental e na vida social. Hoje, a importância da escola aumentou e, consequentemente, a do professor. Após a publicação do livro Inteligência Emocional, do psicólogo e pesquisador Daniel Goleman, muitas escolas nos Estados Unidos e na Europa já incluem o aprendizado social e emocional em seus currículos. Estudos têm demonstrado que ensinar as crianças a desenvolver uma regulação saudável das emoções as ajuda a aprender. Um experimento recente numa escola pública, para crianças em idade pré-escolar, encontrou efeitos significativos na função executiva, no autocontrole e no comportamento pró-social. A educação emocional pode gerar uma revolução social, disse o psicólogo e educador australiano Richard D. Roberts, em entrevista para a revista Época, em setembro de 2015.

No Mind and Life Institute, organização na qual Dalai Lama é cofundador, há reuniões de neurocientistas, psicólogos e educadores para estudar o que a ética secular pode ocasionar.  No centro da sua resposta até o momento, há o reconhecimento de que nosso instinto de cuidado é a base do sentimento moral e de que nosso desenvolvimento social e moral é definido por três categorias principais de cuidado: o que recebemos dos outros, o que estendemos aos demais e o cuidado de si.

Depende de nós

Para todas as categorias e para todos os cenários, há alguns ingredientes em comum, entre eles a compaixão. No livro Um Coração Sem Medo, Thupten Jinpa diz – “quando tornamos a compaixão a base de nossa intenção consciente para estruturar a sociedade, passamos a nos preocupar com o conceito de humanidade e alívio do sofrimento (...) Para mim, a compaixão é a chave para uma vida repleta de significado (...) Depende de nós viver a vida com compaixão: só precisamos estabelecer um relacionamento conosco, com os outros e o mundo a partir de um ponto de vista da compaixão, compreensão e bondade”.  No documentário Happy, Michael Pritchard enfatiza - “a compaixão leva à felicidade”.

Fazer com que esses ingredientes se tornem mais presentes, constantes e equilibrados no nosso cotidiano beneficia a todos – agora e no futuro. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a partir de 2020, o maior gasto em saúde do mundo será com doenças mentais – crises de ansiedade, depressão, síndromes relacionadas ao esgotamento emocional - pânico, burnout etc. Será que não podemos ajudar a reduzir esses números? Talvez ensinar aos jovens que temos que ser mais reais sobre nossas emoções seja o caminho.

Andreza Taglietti / andreza.soha@gmail.com