Prática física ideal: uma meta desafiadora

Por Dr. Fernando Vella

O fato de a atividade física ser importante para a saúde é de conhecimento geral, mas ainda assim uma porcentagem grande da população não pratica qualquer exercício. E mesmo os que praticam raramente o fazem na frequência ideal.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresenta em artigo (http://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/physical-activity) como deveria ser essa prática. Eles recomendam ao menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada por semana, algo como 5 treinos de 30 minutos, mas já avisam que para a prática gerar maiores benefícios são necessários 300 minutos por semana de atividade aeróbica moderada, por exemplo 6 treinos de 50 minutos. Ainda orientam no mínimo 2 treinos de fortalecimento muscular por semana.

Acho que está claro que a OMS gostaria que nos exercitássemos diariamente. Se por um lado isso pode parecer muito difícil de ser encaixado na nossa já apertada rotina, por outro faz muito pouco sentido não priorizar nossa saúde. E qualquer um que já manteve uma prática física regular rapidamente notou melhora de uma série de indicadores, como disposição, sono, digestão, dores articulares, entre outros.

Depois de terminar a faculdade de medicina, sempre mantive alguma prática, mas achava que com a vida corrida praticar 3 vezes por semana era mais do que suficiente. No último ano, estimulado por uma lesão discal em coluna lombar, aceitei que deveria treinar diariamente e hoje afirmo com toda certeza que os benefícios são muito maiores, tanto que nem consigo imaginar ficar um dia sem atividade física.

A prática física regular, mesmo que não seja diária, traz enormes benefícios, mas espero que todos percebam a importância de incluí-la na rotina diária.

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O mundo pelas nossas lentes

Por Andreza Taglietti

Independentemente do lugar e da época, algumas coisas não mudam. Nossas ações são decorrentes de reflexos profundamente arraigados originados de uma necessidade de protegermos nós mesmos e o que é importante para nós – família, trabalho etc. Em busca desse abrigo (físico, material e emocional), no dia a dia, a nossa tendência é recorrer à mentalidade de um soldado em guerra. Usamos classificações como “certo” e “errado”; “amigo” e “inimigo, “herói” e “vilão”. Em todos os ambientes, somos soldados de plantão. No esporte, no trabalho, na política, no trânsito. E isso tem grande influência em diversos aspectos de nossas vidas – molda nossa forma de pensar, nossa saúde, nossas relações, o que consideramos justo ou ético.

Não fazemos de propósito. As tendências inconscientes, os nossos desejos e os nossos medos moldam a forma como interpretamos informações, tomamos decisões, demonstramos sentimentos e comportamentos. Algumas ideias parecem ser nossas aliadas e gostamos de defendê-las. E outras são nossas inimigas. E queremos acabar com elas. Mas essa inconsciência é assustadora, podemos achar que somos justos e objetivos e, ainda assim, prejudicamos pessoas que estão ao nosso redor e a nós mesmos. Temos o hábito de colocar rótulos em grupos sociais ou situações e perdemos oportunidade de vivenciar momentos que poderiam nos trazer aprendizado e amadurecimento.

Formamos nossa mentalidade em três níveis: conforme criamos e mantemos crenças sobre o mundo, sobre os outros e sobre nós mesmos. E se fizermos o exercício de tentar abandonar nossa mentalidade de soldado? Podemos começar a observar a maneira como processamos as informações e os acontecimentos, e a forma como lidamos com isso. Podemos avaliar as situações, entender, identificar possíveis e reais obstáculos. Mas sem jugar pessoas e histórias, passando por cima dos nossos preconceitos e vigiando nosso tentador hábito de ficar na defensiva o tempo todo.  Podemos apenas entender a realidade da forma mais franca e precisa possível, mesmo que ela não seja bonita, conveniente e agradável. E podemos fazer isso sem julgar, sem rotular, sem colocar a culpa no outro “que agiu errado”.

O que mais ansiamos - defender nossas próprias crenças ou ver o mundo da forma mais clara possível? Se transformarmos nossas relações num processo dinâmico, no qual somos enriquecidos e enriquecemos os outros, sentiremos entusiasmo de nos envolvermos e nos conectarmos com as pessoas. Exercitaremos nossas habilidades criativas de forma proativa e, dessa forma, somos capazes de manter um estado de espírito estável e feliz. A vida não é um jogo no sentido da competitividade. E sim um jogo no verdadeiro sentido da palavra: uma atividade repleta de diversão e oportunidades criativas. Ninguém perde quando nós criamos juntos. Ninguém perde quando nós participamos e inovamos com os outros.  

Podemos fazer uma investigação interna, refletir e compreender as crenças que sabotam nossas vidas. Podemos aprimorar nossas capacidades pessoais, sermos flexíveis e leves, remodelarmos nossos pontos de vista. À medida que fazemos esse trabalho interior, notamos uma mudança natural e significativa na nossa mentalidade. Uma das importantes ferramentas nesse processo é a meditação. E ainda falaremos bastante sobre ela por aqui. Acompanhe.

Fontes para o texto:

Palestra TED Juia Galef - Why you think you're right -- even if you're wrong

Livro Mind Sets, Mike George

Crédito da foto: Warren Wong

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Pelo fim do Dia dos Pais

Por Dr. Fernando Vella

Acredito que de forma geral os homens desejam menos ter filhos do que as mulheres. Nesse sentido eu não era uma exceção. Queria sim um filho ou uma filha, mas aceitava com tranquilidade que se por qualquer motivo isso não ocorresse eu seria igualmente feliz.

Já minha esposa tinha um desejo imenso de ser mãe e a sabedoria para pressentir que para nós não haveria felicidade verdadeira sem filhos.

Maturidade para mim significa ser capaz de se esquecer de si mesmo, de suas vontades e de seus quereres. O casamento me ajudou muito nessa jornada. Deixei de ter a maturidade de uma criança de 5 anos para a de uma de 9 anos após alguns anos juntos. Isso porque a esposa teve a ajuda de um professor de meditação que por anos martelou ensinamentos semanalmente em minha cabeça. Ainda assim, antes da gravidez eu me pegava pensando nas perdas que a paternidade impõe: o sono, os jogos de tênis, as noites de poker. Mas o nascimento dos filhos é a oportunidade perfeita para amadurecer e, quando vi meus bebês pela primeira vez, soube que todas as coisas que perdi na verdade eu entreguei de bom grado, pois (de repente, a maior obviedade do mundo) elas não importavam.

Claro que ser pai não é fácil (apesar de ser bem mais fácil do que ser mãe), mas significa sorrir sempre que se chega em casa, gargalhar várias vezes ao dia, ganhar abraços, beijos e carinhos (e cabeçadas) o tempo todo, amar e ser amado de um jeito que não tentarei descrever.

Nem sei se deveria haver um Dia dos Pais. Afinal, como premiar alguém que não importa o quanto dê está sempre ganhando mais?

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Cuide melhor do seu sono

* Por Ricardo Balsimelli

Por que você tem insônia? A ciência médica moderna demonstra que existem hormônios no organismo que possuem ciclos cartesianos de atuação, e eles variam no decorrer do dia e da noite. O cortisol, fabricado pelas glândulas suprarrenais, tem sua concentração máxima ao amanhecer. Quando o Sol se põe, a fabricação desse hormônio é reduzida, induzindo ao descanso orgânico. E então é a vez da melatonina – produzida pela glândula pineal e aumenta no início da noite. Quando ela chega a um certo nível, o corpo tende a esfriar e é induzido ao sono. Entretanto, a vida moderna retarda os mecanismos do organismo e não deixa esse processo natural acontecer. E é por isso que você tem insônia.

Mas você não está sozinho. Noites em claro são queixas frequentes em consultas médicas e geram uma queda importante na qualidade de vida de muitas pessoas. E a má notícia é – se você não começar a cuidar melhor do seu sono agora, a qualidade dele só tende a piorar.

O Ayurveda pode te ajudar a ter dias mais agradáveis e noites mais tranquilas. Como? Primeiramente, realize o máximo de atividades durante o dia, incluindo exercícios físicos. Quanto mais energia gasta de manhã e à tarde, mais preparado o corpo estará para o descanso noturno. É fundamental também estabelecer uma rotina antes de dormir. E ela já começa assim que o Sol se põe. Neste momento, já tente diminuir o volume de Tvs, rádios, devices. Na maior parte da semana, evite frequentar locais barulhentos e agitados. Opte por um jantar leve, de fácil digestão. Alimentos crus e proteínas animais não são aconselháveis para as refeições realizadas após 18 horas. Reduza ou elimine a ingestão de cafeína, estimulantes, adoçantes, bebidas muito geladas e álcool. Opte pelo silêncio ou ouça uma música harmônica, relaxante e suave.

Uma hora antes de dormir, desconecte-se do celular, mídias sociais etc. Tente ir para a cama no mesmo horário todas as noites (por volta das 22 horas) ou, pelo menos, cinco noites da semana. Faça a higiene do sono – algumas respirações profundas para relaxar. Tranquilize a mente, inspire, expire, medite, diminua o fluxo de pensamentos. Tente nutrir a paz interna.

A aromaterapia também auxilia e pode ser aplicada na forma de incensos, essência aromáticas, sabonetes, sachês e óleos aromáticos. Algumas gotas de óleo de lavanda no travesseiro ajudam a relaxar. Outras indicações são almíscar, cravo, hortelã, lótus, mirra, patchouli, sândalo, alfazema, flor de laranjeira (neroli) e ylang-ylang.

Em alguns casos podem ser associados suplementos a base de vitaminas e plantas (fitoterápicos) para ajudar a ter uma noite tranquila. A acupuntura também contribui para a boa qualidade do sono, modulando neurotransmissores que induzem e aprofundam o estado de relaxamento.

Para finalizar, deixo aqui algumas receitas ayurvédicas que usam ingredientes naturais e podem ser inseridas na sua rotina noturna:

  • Uma colher de mel antes de dormir (quanto mais puro, melhor) 
  • Chás calmantes – erva-cidreira, camomila, sálvia (clary sage) 
  • Algumas gotas de Valeriana
  • Acariçoba - cinco folhas no leite antes de deitar
  • Gel de babosa, com gengibre e óleo de gergelim, aplicado na cabeça antes de dormir

 

Texto com base no livro Ayurveda, A Ciência da Longa Vida – Dr.Edson D´Angelo e Janner Rangel Côrtes.

Crédito da foto: Tracey Hocking

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Chegou o Inverno – que tal se cuidar com muito carinho, dosha Kapha?

Ricardo Balsimelli

Nos dias úmidos e frios de inverno, o dosha Kapha entra em desequilíbrio. Por isso, é importante se manter quente, ativo e não se esquecer dos cuidados com a alimentação. Escolha alimentos cozidos e aquecidos, buscando um equilíbrio entre os sabores amargo, adstringente e picante (pimenta). Estimule a capacidade digestiva com chás quentes e temperos aquecedores, principalmente aqueles que ajudam no funcionamento do fogo digestivo (*agni) e favorecem vitalidade e energia – gengibre, canela, cominho. Eles também podem ser consumidos pela manhã, em jejum, com meia xícara de água morna. Evite itens crus, demasiado adocicados, comidas frias, refrigeradas, processadas e/ou congeladas. Limite também o consumo de sal para diminuir a retenção de líquidos – tendência e característica do Kapha.

No que diz respeito ao sistema imunológico, um dos principais desequilíbrios Kapha nesta estação são as infecções respiratórias - tosse, constipações, congestão nasal, sinusites. Além dos cuidados com a alimentação e a **limpeza diária das narinas, procure realizar atividades físicas que contribuam para uma melhora nesse quadro – caminhada, corrida, bicicleta, natação. Os praticantes de Yoga, por exemplo, podem incluir ou intensificar na sua rotina matinal posturas que abram o peito, garganta e seios nasais. Quando a temperatura estiver muito baixa, os exercícios devem ser praticados em ambientes internos e aquecidos. Mantenha o sono regular e evite dormir ao longo do dia. No fim do dia, você pode fazer uma compressa quente e seca nas costas para ajudar a esquentar o corpo.

No inverno, há uma tendência maior à melancolia, ao isolamento e aos sentimentos de tristeza. Em dias úmidos e chuvosos, a paisagem cinza e o frio nos convidam a ficar em casa, o que pode contribuir para a preguiça e a inércia, desequilíbrios do Kapha. Por esta razão, procure estar com pessoas que façam você se sentir bem e proporcionem momentos de diversão. Se o Kapha estiver desequilibrado (estático, lento), é importante fazer algo diferente, improvisado e novo no dia, para gerar estímulos saudáveis e sair da letargia e da imobilidade – características desse dosha. Diga sim para a variedade, para a alegria e para novas experiências.

Busque um equilíbrio entre a vida social e um tempo para você. Nos momentos em que estiver em casa, escolha uma música alegre, faça uma limpeza, abra seus armários, tire tudo que é velho. Identifique aquilo que já serviu e não serve mais. É hora de limpar e dar espaço para o novo da próxima estação - um ritual que ajuda a limpar a casa e as emoções. A meditação também pode contribuir para essa abertura e para essa ampliação da consciência.

E lembre-se - o inverno é uma estação Kapha (água e terra), com algumas características de Vata (elemento ar, seco e frio). Por isso também é importante estar atento ao equilíbrio desse dosha, confira aqui:

https://www.clinicasoha.com/blog/2018/4/2/estamos-no-outono-e-agora-dosha-vata

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*Sobre o agni: https://www.clinicasoha.com/blog/2018/6/6/agni-responsvel-pela-nossa-capacidade-digestiva-e-pelo-nosso-metabolismo

**Sobre a limpeza diária das narinas: https://www.facebook.com/sohaacupuntura/posts/728395470678912

Foto: Dmitry Ratushny

Foto: Dmitry Ratushny

Os caminhos da inteligência emocional

Andreza Taglietti

A inteligência emocional não é suficiente sem uma base ética.  Na busca de uma aspiração elevada e altruísta, trabalhar diariamente nossa intenção nos ajuda nesse sentido, porque exclui o que não está alinhado a nossos valores. É importante olhar para o que surge de dentro para fora e adotar uma prática frequente de questionamento - nossa agenda reflete nossas preferências? Está coerente com nossos valores? Temos o hábito de revisitar nossos propósitos? Como isso reflete no nosso entorno (família, colegas de trabalho, amigos etc)? Conseguimos entender quais impactos que nossas atitudes e decisões geram nas outras pessoas e em nós?

Se realizado de forma constante e honesta, esse exercício nos permitirá cultivar uma atenção maior à felicidade e ao sofrimento que engendramos por meio dos nossos atos, de nossas palavras e de nossos pensamentos. Para Matthieu Ricard*, “existem aqui dois fatores determinantes: a motivação e as consequências dos nossos atos (...) Sempre temos a escolha de adotar uma motivação altruísta e de nos empenharmos para ajudar a criar um resultado positivo. Dessa maneira, é preciso examinar incessantemente a nossa motivação, como diz o Dalai Lama: “Estamos agindo com a mente aberta ou com uma mente pequena? Levamos em consideração a situação geral ou estamos vendo somente algumas especificidades? Vemos as coisas a curto ou a longo prazo? [...] A nossa motivação é genuinamente compassiva? [...] A nossa compaixão está limitada apenas às nossas famílias, aos nossos amigos e àqueles com quem nos identificamos? [...]. O núcleo essencial da ética é, portanto, o nosso estado mental e não a forma que tomam as nossas ações”.

Ética, aspiração, propósito, valores. Não há consenso sobre esses conceitos num mundo multicultural, subjetivo, líquido e flutuante como o nosso. Temos responsabilizado as redes sociais, as crises globais, o descaso pela educação, os líderes. Mas isso sempre aconteceu, em várias sociedades e em diversos contextos. Há muitos exemplos nas mitologias, nas religiões, nas sociedades medievais - sempre houve situações conflituosas que testavam e questionavam os limites da ética e valores como lealdade e honestidade. Nesses histórias e narrativas, modernas ou antigas, a inteligência emocional está presente, mas muitas vezes inserida num contexto de manipulação, controle e abuso.  

Os cientistas têm se interessado por esse uso não-ético da inteligência emocional.  Um estudo de 2013 revelou que aqueles que tendiam a explorar os outros para ganho pessoal também eram bons em ler as emoções, especialmente as negativas. Uma pesquisa de 2011 indicou - pessoas que têm mais consciência de como regular as emoções e que mostram uma tendência a manipular os outros para ganho pessoal são mais propensas a se engajar em ações desviantes, como envergonhar publicamente alguém no trabalho.

Em 2010, um grupo de cientistas descobriu que indivíduos que demonstraram certos traços narcísicos (em essência, um padrão generalizado de grandiosidade, autofoco e auto-importância) passaram boas impressões iniciais para seus pares, usando humor e expressões faciais encantadoras. Isso quer dizer que as pessoas movidas por interesses próprios são mais talentosas em influenciar e ganhar o apoio dos outros.

Além das constatações citadas acima, vale destacar também outros pontos observados por estudiosos e pelos profissionais da área de Saúde Mental sobre o lado não-ético da inteligência emocional, e um exemplo é o uso da empatia. Para o psicólogo Paul Gilbert, ela não implica necessariamente bondade ou altruísmo. A empatia também torna possível a tortura, ressalta Gilbert. Sem empatia, um torturador não teria nenhum conceito do sofrimento que ele está causando. Ele sabe a dor que está causando justamente porque ele é capaz de desenvolver um alto grau de empatia e tem a habilidade de "colocar-se nos sapatos de outra pessoa".

Ser persuadido, motivado e influenciado por outros pode ter um lado positivo - contanto que resulte em um comportamento consistente com nossos valores. Se isso não acontecer e se descobrirmos que fomos enganados ou manipulados, podemos tentar entender nossas vulnerabilidades daquele momento (por que deixamos a porta aberta da nossa casa para a pessoa entrar?) e procurar ferramentas para regular nossas emoções.

Com o cultivo da autocompaixão, da compaixão e com a prática da meditação e da observação, ampliamos a autoconsciência e o estado de vigilância dos nossos pensamentos e das nossas ações. Isso nos ajuda a evitar que nos tornemos escravos de nossos sentimentos, mesmo quando um manipulador habilidoso trabalha duro para explorá-los. Dessa forma, desenvolvemos e aperfeiçoamos nossa própria inteligência emocional, evitando agir de uma maneira que não seja do nosso interesse ou que esteja em conflito com nossos valores e princípios, evitando ou diminuindo episódios de arrependimento.

Matthieu Ricard nos lembra - “A ética prática deve levar em conta, com visão interior e compaixão, todos os prós e contras de uma dada situação (...) É grande a dificuldade de pô-la em prática, porque ela transcende o recurso cego e automático ao texto da lei e aos códigos morais. Portanto, também é grande o risco que corre de ser distorcida ou manipulada. De fato, essa ética requer um tipo de flexibilidade que é, em si, uma fonte de perigo. Se for cooptada pelo egoísmo e pela parcialidade, pode ser explorada para fins negativos que vão contra os seus objetivos iniciais. Daí a necessidade, para todos e em especial para aqueles que exercem a justiça, de desenvolver a sabedoria e uma profunda preocupação com o bem-estar dos outros”.

 

Fontes para o texto:

* Felicidade, A prática do bem-estar - Matthieu Ricard

**Artigo da Time - http://time.com/5300642/dark-side-emotional-intelligence/  

Foto Saray Jimenez

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Nossa sexualidade, nossa vida em harmonia

Por Ricardo Balsimelli

A energia sexual é muito importante para todos os seres – natureza, animais e seres humanos. Ela está ligada à nossa força vital. Além de equilibrar nossos sistemas físico e emocional, o sexo é um motor que, usado de forma consciente, resulta em criatividade, permitindo-nos viver uma vida plena, criativa, leve e prazerosa em qualquer ordem.

Nas terapias integrativas, a energia sexual está relacionada com os chacras - centros de energia em forma de círculo (chakra = roda, em sânscrito; eixo rotativo de energia, como se fossem CDs). Os sete principais que vibram constantemente no nosso corpo são (de baixo para cima): Básico, Sexual, Plexo Solar, Cardíaco, Laríngeo, Frontal e Coronário. Todos eles estão associados ao nosso sistema endócrino, e cada um deles vinculado a uma glândula específica. 

A vibração de cada um dos chacras indica se a pessoa está bem ou não em cada parte do corpo e em cada setor da sua vida. Em excesso, está hiperativo. Se vibra menos do que o normal, está hipoativo, em desequilíbrio. Portanto, desbloqueá-los significa abrir o fluxo de energia - quanto mais a deixamos fluir, mais sadios seremos. Se esse sistema está obstruído, a consequência é a doença. Isso também distorce nossas percepções e deprime nossos sentimentos e, por isso, interfere na nossa experiência de vida. 

Quando falamos em energia sexual (e da nossa força vital), estamos nos referindo ao Swadhisthana Chakra (ou cidade do prazer, em sânscrito). Encontra-se na região do baixo ventre. É fisicamente ligado às gônadas – testículos (homem) e ovários (mulher) – e à energia feminina, ao útero materno, à procriação (à criação de outras coisas também, como projetos pessoais, profissionais). É responsável pela reprodução e troca sexual, e pelo fluxo de líquidos em todo o corpo humano.

O Swadhisthana Chakra energiza toda a área genital e urinária. É regido pela Lua (por isso tão associado ao feminino, à sexualidade, à maternidade e à criação) e pelo elemento água (vinculado ao líquido amniótico, às relações interpessoais, à autoestima, ao amor-próprio). Está relacionado ao nosso aspecto emocional, aos nossos sentimentos. Armazena emoções vividas em relacionamentos, e nos dá a missão de interagir com aquilo que está ao nosso redor de forma harmoniosa.

É o chacra da alegria. Quando está bloqueado, causa impotência sexual ou desânimo, problemas de relacionamento, baixa autoestima. Se está hiperativo, há um intenso desejo sexual e outras compulsões. Se estiver saudável, ele estimula o melhor funcionamento dos outros chacras e ajuda no despertar da energia psicossexual, a kundalini (motor da psique e do sexo) - a pessoa tem uma autoestima equilibrada, consegue aproveitar e apreciar os prazeres da vida.

Para a medicina moderna, sob o ponto de vista do funcionamento do organismo, o hormônio responsável por cumprir esse papel, para homens e mulheres, é a testosterona – dá vitalidade, aumenta a energia e a libido. Em nível normal, proporciona sensação de bem-estar, confiança, contentamento, prazer e alegria. Quando há deficiência, gera perda de massa muscular, pouca vitalidade, diminuição da libido. E, no mundo em que vivemos hoje, esse quadro é muito comum – o estresse gera um consumo dos precursores da testosterona (o mais importante e o mais prejudicado entre eles é o DHEA).

Mas o que fazer para reverter esse quadro? A lista é fácil e simples: o uso inteligente da energia sexual; meditação; atividade física; contato com a natureza; alimentos naturais e energéticos; vida social; autocuidado para alinhamento dos chacras (acupuntura, massagens, reiki; yoga); e a expressão de nossas emoções abertas. 

Não podemos adiar questões relacionadas à nossa sexualidade. Como já vimos, é uma energia que nos move, uma energia de vida e de expressão. Crenças precisam ser revistas, identificadas e desbloqueadas. Abrir um canal de diálogo é muito importante e é uma troca nutritiva – é uma oportunidade de estreitar vínculos entre os parceiros; desenvolve a mutualidade e a cumplicidade; estimula a compreensão, o carinho e o cultivo do amor. Quando acrescentamos à nossa existência as coisas simples que são divertidas e saudáveis, a vida flui, expandimos nossa consciência e nossa capacidade de amar, no dia dos namorados e em todos os dias.  

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Autocompaixão: conhece-te a ti mesmo; ocupa-te de ti mesmo

O hábito de experimentar amor e ternura por nós mesmos

Por Andreza Taglietti

A autocompaixão conecta o desejo interior de estar saudável e feliz. Se nós nos ocupamos de nós mesmos, damos início a um amadurecimento e a um crescimento psicológico, com mais consciência, mais sabedoria e mais amor – por nós e pelos outros. Certamente vamos querer mudar os padrões de conduta, mesmo que isso signifique renunciar a certas coisas que gostamos ou que temos apego.

No livro Self Compassion, Kristin Neff fala sobre o esforço puro e prolongado (definição de Buda) como qualidade motivadora da autocompaixão. Provém do desejo natural de curar o sofrimento, solucionar o problema, e não é o resultado de um comportamento egoísta. E podemos ser amáveis e sensíveis nesse caminho de aprendizado e de mudança. Podemos reconhecer que a vida é dura, que os desafios fazem parte da experiência humana. Por sorte, a amabilidade e o apoio criam sentimentos positivos e nos ajudam a seguir nessa busca diária pelo cultivo da autocompaixão.

Essa passagem do livro pode ser automaticamente associada à filosofia grega (e aos estudiosos dessa filosofia, como o francês Michel Foucault). No conselho do Oráculo de Delfos aos antigos gregos, “conhece-te a ti mesmo” é considerado o marco inicial da longa trajetória da humanidade rumo ao autoconhecimento. Conhecer-se é o ponto de partida para uma vida equilibrada e, por consequência, mais autêntica e feliz. Nessa visão, maturidade não é um desdobramento natural do tempo vivido, e sim resultado da vontade, do esforço de cada indivíduo em conquistá-la. 

Em Apologia de Sócrates, Sócrates (por meio de Platão) é o encarregado pelos Deuses de lembrar e incentivar os homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Ao proclamar o cuidado de si em Atenas, ele abre mão de uma série de situações consideradas vantajosas, como fortuna e cargos de poder e que, agindo assim, conseguiu despertar, pela primeira vez, os cidadãos de Atenas de um profundo sono. Portanto, o cuidado de si é a realidade mais admirável, pois proporciona algo equivalente a uma vida consciente, ativa e desperta.

Quando o “conhece-te a ti mesmo” surge na filosofia, precisamente com Sócrates, aparece como uma aplicação particular de uma regra mais geral: o cuidado de si. Ocupar-se consigo mesmo é condição para governar os outros, reflete no nosso externo - nosso entorno, nossa vida em sociedade e nossas relações. Quando fazemos o exercício de nos cuidarmos e nos olharmos, abrimos espaço para reflexões importantes como: que qualidades do coração e da mente queremos fomentar e nutrir em nós mesmos e levarmos para o mundo?  De quais qualidades da mente ou comportamentos gostaríamos de nos libertar?

A segunda questão não pode ser negligenciada. Ao longo da nossa jornada diária há obstáculos que nos bloqueiam, porque são acompanhados de tristeza, traumas, frustrações, emoções negativas. Mas, se há sofrimento, precisamos reconhecer que ele existe. E a autocompaixão primeiramente requer que tomemos consciência dele e dos hábitos que obstruem nosso próprio bem-estar. Também nos conduz a um comportamento proativo (em lugar de passivo) para melhorar a situação pessoal. Ter compaixão por si mesmo não significa crer que “os meus problemas são mais importantes que os seus”, mas sim pensar que os meus problemas também são importantes e requerem a MINHA atenção (e não a dos outros). Ou seja, mais uma vez, o ponto de observação e consciência é “preciso me ocupar de mim mesmo”.

A autocompaixão é um presente precioso ao alcance de qualquer um que esteja disposto a se descobrir. Quando desenvolvemos o hábito da bondade interior, o sofrimento se converte em uma oportunidade para experimentar amor e ternura com nós mesmos. Não importa quão difícil estejam as coisas. Podemos acalmar e consolar nossa própria dor, por meio de um genuíno cuidado com nós mesmos. Não precisamos de ninguém para nos brindar com calor e compaixão para nos sentirmos dignos de amor. Não temos que buscar fora de nós a aceitação e a segurança que desejamos. Quem pode saber melhor que você como se sente abaixo dessa fachada alegre? Quem conhece melhor o alcance da dor e do medo que você enfrenta, quem sabe melhor do que você o que você necessita? Quem é a única pessoa da tua vida que está disponível por 24 horas do dia e sete dias da semana para te proporcionar amor e acolhimento? Você. 

Somos merecedores de carinho e atenção. A autocompaixão é uma poderosa ferramenta para conseguir cultivar as causas do nosso bem-estar e da nossa satisfação pessoal. Ao brindarmos com nós mesmos afeto e consolo incondicionais, aceitando ao mesmo tempo a experiência humana, por mais difícil que seja, evitamos condutas negativas como o medo, a negatividade e o isolamento. Ao mesmo tempo, fomenta estados mentais positivos, como a felicidade e o otimismo.

Texto com base no livro Self Compassion, de Kristin Neff

Foto: Sharon McCutch

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Agni – responsável pela nossa capacidade digestiva e pelo nosso metabolismo

Por Ricardo Balsimelli

Para o Ayurveda, um item importantíssimo para o organismo funcionar bem é o agni – ele é essencial para o corpo humano, correspondendo ao elemento fogo (que transmuta a matéria, convertendo madeira em pó, assim os antigos entendiam que teríamos um fogo interno transformando alimento em nutrientes e excretas). Corresponde ao Sol, à chama, à energia interna capaz de promover a percepção, a ação e a expressão, sendo estes os atributos da consciência humana.

Entre todos os agnis (temos até fogo no cérebro, transformando os estímulos visuais em impressões, de acordo com nossas crenças e vivências), o mais importante é o fogo digestivo - Jatharagni, termo que vem da raiz sânscrita que significa barriga, abdômen. Está relacionado com as enzimas digestivas do estômago e do intestino delgado. Ou seja, ele é responsável pela capacidade da nossa digestão e aparece em diferentes estágios no nosso organismo, dependendo do Dosha predominante:

  • Agni elevado – Pitta. Pessoas possuidoras de forte apetite e com boa capacidade digestiva, não ganhando peso com facilidade.
  • Agni baixo – Kapha. Possuidores de pouco apetite, mas constante. Baixo metabolismo que favorece o ganho de peso com facilidade.
  • Agni variável – Vatta. Apetite variável de acordo com o estado emocional, oscilando entre fome excessiva e a falta de apetite

Para manter o agni equilibrado, optamos por alimentos que contenham a natureza do fogo (quente), como temperos picantes – gengibre, pimenta-do-reino, cominho. É importante também perceber se o “fogo está aceso” durante e depois da digestão. E a recomendação aqui é a auto-observação. Como estou sentindo esse alimento – leve ou pesado? Quente ou frio? Como fico depois de uma hora da refeição – fiz digestão e estou leve? Ou percebo uma distensão abdominal e tenho sensação de peso?

Outro ponto a ser respeitado nesse processo é a necessidade de realizar a próxima refeição – estou realmente com fome? E, para o bom funcionamento do agni, o Ayurveda recomenda – espere ter fome para comer.  Para que essa energia interna atue de forma mais eficaz no nosso corpo, os tratamentos ayurvédicos também recomendam outros procedimentos, como jejum, panchakarma (veja link no fim do texto), massagens, sauna e exercícios de respiração (pranayamas). Eles também aumentam o fogo digestivo, ou seja, a capacidade do corpo de metabolizar e eliminar as toxinas (ama) acumuladas e presas nos tecidos.

Quando o agni é suficiente no organismo, as toxinas não permanecem no corpo. Os processos de assimilação, nutrição e absorção acontecem sem esforço. Doshas e emoções ficam em perfeita harmonia e equilíbrio. A mente e os sentidos se mantêm claros, estimulando para mudanças positivas no direcionamento da vida. O agni desequilibrado inibe o sistema imunológico e favorece o aparecimento de distúrbios de origem psicossomática. Provoca rigidez mental, peso estomacal, emoções negativas e deficiência nas percepções.

Portanto, um apetite moderado, regular, acompanhado de boa digestão, é sinal de boa saúde – física e emocional. As combinações corretas dos alimentos recomendadas pelo Ayurveda são fundamentais para esse quadro saudável e positivo. O Agni é uma força em constante mudança. Equilibrá-lo é uma tarefa diária e contínua, mas muito saborosa, eu te garanto.

*Texto com base no livro Ayurveda – a ciência da longa vida – Dr. Edson D´Angelo / Janner Rangel Côrtes

**Sobre o panchakarma - https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=710689105782882&id=280739755444488

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A Medicina Integrativa e a promoção da Saúde

Por Dr. Ricardo Balsimelli

O termo Medicina integrativa tem ganhado cada vez mais espaço nos hospitais do Brasil, Estados Unidos e Europa, na saúde pública, e na mídia. Nos últimos anos, foram criados mais cursos de especialização e pós-graduações sobre esse tema. Mas, afinal, o que é a medicina integrativa?

Com foco na promoção da saúde, a medicina integrativa é o termo utilizado para um conjunto de terapias que dão suporte ao tratamento da medicina moderna, cujo foco é a doença em si - desde seu no diagnóstico precoce até medidas buscando a cura (quando possível) ou a estabilização, e evitar a evolução caso a quadro seja crônico.

O objetivo da medicina integrativa é promover saúde para o corpo, melhorando o metabolismo, imunidade e estado mental. Esse processo gera uma melhor resposta do organismo ao tratamento da medicina moderna e, dependendo do caso, viabiliza até a suspensão de medicações de uso crônico.

Como a medicina integrativa funciona?

Existem várias terapias que constituem a medicina integrativa, e todas atuam de diversas formas, mas principalmente com uma lente de aumento em um eixo denominado Psiconeuroendocrinoimunológico. O nome é complicado, né? Por isso, vou detalhar.

PsicoNeuro - O estresse é visto hoje como um fator importante tanto para a saúde mental e qualidade de vida quanto como um fator que ativa a liberação de neurotransmissores no cérebro que levam à ansiedade, à depressão, e às dores de cabeça. Esse cenário piora também a qualidade do sono e contribui para a redução da memória. Nesse processo é ativado o Sistema Nervoso Autônomo Simpático – responsável pelo aumento da frequência cardíaca, pressão arterial, dentre outras reações que preparam o corpo para lutar ou fugir de uma ameaça (pois é assim que nosso cérebro interpreta o estresse, estamos frente a uma ameaça!). Esse ciclo que acabo de explicar é a ligação do sistema psíquico com o neurológico. E o que acontece depois?

NeuroEndocrino - Sob a influência do estresse, o cérebro estimula uma de suas glândulas endócrinas (hipófise) a liberar hormônios que vão agir em outras funções; entre elas a suprarrenal, promovendo produção de cortisol e adrenalina. Ativados os sistemas neurológico e endocrinológico, o organismo passa para a etapa subsequente.

EndocrinoImunologico - O cortisol e adrenalina, em elevada quantidade no corpo, causam uma desregulação da função das células de defesa do organismo. Esse desequilíbrio promove uma redução da imunidade, propiciando aparecimento de doenças infecciosas com mais facilidade, por exemplo - herpes, gripes, resfriados, entre outras. Ou pode ocorrer uma exacerbação da atividade imunológica, culminando em processos inflamatórios e doenças autoimunes (ou seja, o corpo produz anticorpos contra as próprias estruturas dele; exemplos – artrite, diabetes, esclerose múltipla, lúpus etc).

Por causa desse complexo sistema, algumas das práticas integrativas como a medicina tradicional chinesa e indiana enfatizam a importância de um trato digestivo saudável, desde a alimentação, digestão a evacuação.

Diversos estudos têm mostrado que uma alimentação equilibrada, uma boa digestão e um intestino que funciona saudavelmente traz um aumento de substâncias antioxidantes que promovem redução de processos inflamatórios em todo o corpo. Encontramos inflamação em centenas de doenças, desde depressão (sim, depressão tem relação com inflamação cerebral) até tendinite no pé.

Portanto, as medicinas integrativas agem na mente e nas atividades neurológica, hormonal, imunológica e inflamatória, contribuindo para o tratamento das mais diversas doenças em todas as especialidades médicas.

Crédito da foto – Michal Lomza

Crédito da foto – Michal Lomza

Ocitocina: hormônio do amor que contribui para o nosso equilíbrio emocional

Por Dr. Ricardo Balsimelli

A ocitocina (ou oxitocina) é um hormônio produzido no cérebro e tem um papel muito importante na saúde física e mental do indivíduo, desde quando ele está na barriga da mãe até a vida adulta. Conhecida como hormônio do amor ou hormônio do aconchego, está vinculada ao sistema mamífero de cuidado, à linguagem amorosa, às emoções positivas e promove fortaleza do sistema imunológico.

Nas fases de gestação, parto e amamentação, a ocitocina normalmente é produzida pela mulher de forma natural, o próprio organismo faz esse trabalho. O hormônio promove a ligação entre mãe e filho. Por meio dos cuidados que recebe e a partir das primeiras experiências em cada etapa, o bebê passa a reconhecê-la como fonte de conforto, cria memórias emocionais de afeto, de segurança e de tranquilidade e não as esquece mais.

“O guru que me ensinou o valor da compaixão foi minha mãe. O primeiro ato depois do nascimento é depender da mãe e tomar seu leite. Na ocasião, você nem tem ideia de quem é aquela pessoa, mas simplesmente se agarra ao peito dela. Do lado da mãe, há um tremendo senso de carinho, afeição e compaixão. O vínculo e a proximidade entre a mãe e o filho – não são de lei ou de religião, são da natureza”, disse Dalai Lama em depoimento no documentário Happy.

Mas a ocitocina não é exclusiva das mães e/ou das mulheres. Os homens também a fabricam. Ela nutre a todos nós no longo prazo, pois está relacionada à linguagem de aproximação e de conexão. Afeta nossa personalidade, sobretudo nossa maneira de estabelecer relacionamentos nos diversos ciclos da vida. Age como um neurotransmissor, regulando nosso comportamento de interação social. É associada a sentimentos de proximidade e contentamento e contribui para nosso equilíbrio emocional.

Essa regulação das emoções acontece porque, à medida que vamos crescendo, segundo pesquisadores, nossa capacidade de nos acalmar vai se desenvolvendo a partir de nossas primeiras experiências. Trata-se de um processo de lembrança emocional, por assim dizer - um “cobertor de segurança” para situações de estresse. Se nossas primeiras experiências não foram tão ideais assim, precisamos construir aquela sensação de dor e segurança na idade adulta. Não podemos mudar nossos pais nem nossas experiências de infância, mas, quando adultos, podemos aprender diferentes maneiras de regular nossas emoções para lidar com os outros. E conosco. Portanto, seguindo a estratégia de “criar um cobertor de segurança para situações de estresse”, é importante lembrar que o estímulo de produção de ocitocina na infância influencia fortemente nosso limiar de autocompaixão e autoconfiança na idade adulta.

Podemos aprender a regular hormônios de bem-estar e segurança como a ocitocina. Hoje já se sabe que, ao perceber sensações de toque, carinho e conforto, nosso corpo a fabrica, seja em mulheres ou homens. Uma maneira de estimular nosso organismo a produzi-la é estar perto de pessoas de quem gostamos e amamos, e compartilhar momentos agradáveis com elas.  O amor nos faz sentir seguros e confiantes (em parte, porque favorece a produção de ocitocina, uma retroalimentação amor-confiança/segurança - ocitocina-amor). Quando experimentamos sentimentos carinhosos e ternos/dóceis, não somente mudamos nossa mente, mas também nosso corpo. Em vez de nos sentirmos preocupados e ansiosos, nos sentimos tranquilos, satisfeitos, confiantes e seguros. E nos tornamos disponíveis - nesse estado de bem-estar, conseguimos olhar para nós mesmos e para os outros por meio do amor e da compaixão. Entender as vulnerabilidades, criar empatia, acolher, talvez ajudar. E, dessa forma, ativar espontaneamente nosso sistema mamífero de cuidado.  

 

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Os jovens – suas cores e suas dores Por Andreza Taglietti

O que tento ensinar às crianças é que temos que ser mais reais sobre nossas emoções. A frase é de Michael Pritchard, um comediante que disse não aos holofotes de Hollywood e preferiu usar o seu talento no mundo real, conectando jovens e adultos (pais, educadores, pedagogos). O documentário Happy nos dá uma degustação do trabalho de Pritchard e nos mostra a ocasião em que ele divide o microfone, a narrativa e as atenções com os estudantes que estão ali para escutá-lo. Em determinado momento, o papel se inverte – Pritchard escuta; eles falam. Sobre suas vidas, seus desafetos, suas lutas diárias em ambientes que podem ser extremamente hostis para eles.

Os diversos vídeos de Pritchard no Youtube seguem a mesma linha: ele destina parte de suas palestras para os alunos se manifestarem. Há um ponto impressionante em comum em todos esses encontros: a capacidade que ele tem de deixar as crianças e adolescentes confortáveis ao exporem suas histórias em público. Para a surpresa de pais, pedagogos e professores, eles compartilham, de maneira corajosa, seus sentimentos, suas emoções, suas dores, seus traumas.

“Essa força de caráter para se levantar e se levantar por si mesmo e para ajudar os outros a tentarem ser mais compassivos - se pudermos aproveitar isso como um recurso para o mundo, essa apatia, essa negligência, essa indiferença, vai acabar. E esse é o começo da paz”, diz Pritchard. Numa linguagem simples e sincera, e também usando seus recursos de comediante, ele sensibiliza a plateia, estimula reflexões profundas e endereça mensagens importantes que acompanharão a trajetória de vida do indivíduo no longo prazo - “não importa o que a gente ensine para seus cérebros, o amor é mais importante que o conhecimento. A melhor coisa que podemos fazer por um jovem é ajudá-lo a aprender a amar”.

De forma geral, crianças e jovens são provocados, ridicularizados, excluídos e isolados. Por isso, é importante acompanhá-los, escutá-los atentamente, abrir e manter um canal de diálogo para saber e entender o que eles estão pensando e sentindo. É essencial criar um ambiente no qual se sintam confortáveis, em que eles tratem bem uns aos outros, reconheçam e acolham suas cores e suas dores. Sem julgamentos. Elas precisam ser divididas e respeitadas. “Nós ficamos doentes se tentamos conter toda a dor. E então a dor não tratada se transforma em raiva e a raiva se enfurece. E há duas direções, para a comunidade e para dentro – em direção ao eu e à autodestruição ”, diz Michael Pritchard.

A escola e as emoções

Armadilhas emocionais. Jovens mais vulneráveis e sem coragem de pedir ajuda. Isolamento. Sensação de não-pertencimento. Depressão. Burn out. Uso de drogas. Cada vez mais se fala sobre as consequências de dores não-tratadas, principalmente entre crianças e jovens – na mídia, no cinema, nos programas e seriados de TV. São questões particularmente agudas neste período de transição da infância para a idade adulta, da idade de dependente para a idade de responsável, de pessoa subordinada à tomadora de decisão.

Entender esse universo traz resultados positivos para os alunos, sobretudo para sua saúde mental e na vida social. Hoje, a importância da escola aumentou e, consequentemente, a do professor. Após a publicação do livro Inteligência Emocional, do psicólogo e pesquisador Daniel Goleman, muitas escolas nos Estados Unidos e na Europa já incluem o aprendizado social e emocional em seus currículos. Estudos têm demonstrado que ensinar as crianças a desenvolver uma regulação saudável das emoções as ajuda a aprender. Um experimento recente numa escola pública, para crianças em idade pré-escolar, encontrou efeitos significativos na função executiva, no autocontrole e no comportamento pró-social. A educação emocional pode gerar uma revolução social, disse o psicólogo e educador australiano Richard D. Roberts, em entrevista para a revista Época, em setembro de 2015.

No Mind and Life Institute, organização na qual Dalai Lama é cofundador, há reuniões de neurocientistas, psicólogos e educadores para estudar o que a ética secular pode ocasionar.  No centro da sua resposta até o momento, há o reconhecimento de que nosso instinto de cuidado é a base do sentimento moral e de que nosso desenvolvimento social e moral é definido por três categorias principais de cuidado: o que recebemos dos outros, o que estendemos aos demais e o cuidado de si.

Depende de nós

Para todas as categorias e para todos os cenários, há alguns ingredientes em comum, entre eles a compaixão. No livro Um Coração Sem Medo, Thupten Jinpa diz – “quando tornamos a compaixão a base de nossa intenção consciente para estruturar a sociedade, passamos a nos preocupar com o conceito de humanidade e alívio do sofrimento (...) Para mim, a compaixão é a chave para uma vida repleta de significado (...) Depende de nós viver a vida com compaixão: só precisamos estabelecer um relacionamento conosco, com os outros e o mundo a partir de um ponto de vista da compaixão, compreensão e bondade”.  No documentário Happy, Michael Pritchard enfatiza - “a compaixão leva à felicidade”.

Fazer com que esses ingredientes se tornem mais presentes, constantes e equilibrados no nosso cotidiano beneficia a todos – agora e no futuro. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), a partir de 2020, o maior gasto em saúde do mundo será com doenças mentais – crises de ansiedade, depressão, síndromes relacionadas ao esgotamento emocional - pânico, burnout etc. Será que não podemos ajudar a reduzir esses números? Talvez ensinar aos jovens que temos que ser mais reais sobre nossas emoções seja o caminho.

Andreza Taglietti / andreza.soha@gmail.com

Atenção Plena – acredite na simplicidade do processo

Por Dr. Ricardo Balsimelli

 

Meditação é algo para ser experimentado. É prática. Uma experiência por dia. O objetivo do meditador é desenvolver consciência. Consciência do que quer que esteja ali. Consiste em experimentar os eventos da própria vida de maneira direta. Observar a vida se desenrolar momento a momento. Sem preconceitos. Sem julgamentos. Como fazer isso? Há muitas técnicas de meditação ao redor do mundo, mas hoje nos restringiremos à prática da atenção plena (mindfulness).

Primeiramente, é importante esclarecer que Mindfulness não é apenas uma técnica de relaxamento. Concentração e relaxamento são necessários. São precursores obrigatórios, ferramentas úteis e subprodutos benéficos. Mas a prática da atenção plena nos apresenta algo simples e grandioso ao mesmo tempo – a consciência e a transformação da vida cotidiana. Uma investigação e um experimento. Uma revolução interna. Uma revolução silenciosa. E libertadora.

E como essa revolução se inicia? Quando nos tornamos o centro observador de nós mesmos e do nosso entorno. Respiração. Corpo. Sentidos. Emoções. E o ciclo se reinicia. Simples assim. E no seu tempo. Não estamos competindo com ninguém. Não há um cronograma ou uma exigência de performance. Estamos numa jornada interna, cada um de nós, com um fuso horário particular e único. Cada pessoa ajustará e afiará as habilidades e entenderá as experiências individuais. Uma a uma.

E o que é ser o centro observador de nós mesmos?  É ficar ciente do que realmente somos. Observar sem a interferência da nossa formação nos dada ou conquistada até o momento (religião, família, classe social etc). Observar sem nenhuma inclinação. Uma investigação participativa em que cada um de nós observa as próprias experiências enquanto participa delas. Como se estivesse no cinema. Eu sou o espectador de um filme – meus pensamentos, meus humores, meus medos e minhas emoções. O centro observador diz – são só pensamentos (é só um filme).  Haverá momentos em que eu me revoltarei – não, isso não vai funcionar. Vai, sim. Basta acreditar na simplicidade do processo: respirar (uma âncora importante para restabelecer sua atenção); observar (percepção é fundamental); acolher (aceitação) as minhas emoções. E deixá-las ir embora. Como a sessão de cinema ou como uma chuva forte do fim de uma tarde de verão – começo, meio e fim. A impermanência das coisas. Mas isso é assunto para outro dia, em outro texto do blog.

 

Texto com base nos livros:

  1. Atenção Plena em Linguagem Simples; Bhante Henepola Gunaratana

  2. Atenção Plena Mindfulness; Mark Williams e Danny Penman

Estamos no outono. E agora, dosha Vata?

Como já vimos em posts anteriores, as condições da natureza impactam nosso bem-estar físico e emocional. Clima, condições geográficas e alimentação influenciam nosso humor.  E chegamos ao outono, uma estação que costuma ser seca e fria - características que começam a agravar o dosha Vata (elemento ar), composto pelos mesmos atributos do período (seco e frio). Dessa maneira, pessoas com esta constituição devem ter cuidados redobrados, prestar atenção na rotina e rever alguns hábitos diários.

Vamos começar então pela alimentação para Vata nesta época do ano - ela deve ser regular (a cada três horas), mais nutritiva, quente e úmida. Tente evitar alimentos crus e/ou frios no fim da tarde e à noite. No período da manhã, o ideal é começar a consumi-los (se sentir necessidade) a partir das dez horas. Dê preferência aos assados, cozidos e grelhados. Diminua a ingestão de itens picantes, amargos (verduras) e adstringentes (tofu, feijões, ervilhas). Busque os sabores doce, salgado e ácido – eles são benéficos para equilibrar o Vata nesta fase. Para evitar a secura (típica do Vata e do Outono), ao longo do dia, tome bastante líquido e opte por chás de erva-doce, camomila, canela e gengibre. Evite bebidas frias e/ou geladas.

As pessoas do tipo Vata têm tendência à pele mais seca e mais áspera neste período. Por isso, fique de olho no autocuidado. É importante receber massagens ou fazer automassagens, com o objetivo de hidratar os tecidos (por dentro e por fora), além de consumir bastante óleo nas refeições (principalmente azeite e gergelim). Se puder, antes de dormir, faça uma boa massagem na planta dos pés para que o sono seja profundo. A sauna úmida também é uma grande aliada nesse processo.

Para aqueles que sentem ressecamento das mucosas da narina, a orientação é pingar/aplicar na região duas gotas de ghee ou óleo de gergelim morno antes de dormir. E, ao acordar, recomendamos fazer a limpeza (Jala Netti) diária das narinas, toda manhã, de modo a mantê-las desobstruídas. Como? Separe um recipiente adequado (Lota ou conta-gotas) para introduzir água salgada morna (da temperatura do corpo) nas narinas. Acrescente um grama de sal (metade de uma tampinha bic) para cada 100 ml de água. Esse processo promove o descongestionamento da mucosa do nariz e estimula os canais energéticos localizados na coluna vertebral (Ida e Píngala), mantendo-os desobstruídos favorecendo a fluidez da energia vital (ojas).

Há também uma tendência do Vata se queixar de insônia e dor de cabeça. A recomendação aqui é contemplação, concentração e meditação. Desacelere, dê pausas regulares no trabalho e fique mais em silêncio. Tranquilize a mente, respire, diminua o fluxo de pensamentos. Tente nutrir a paz interna. Vata é agravado por sentimentos como medo, insegurança e pelo excesso de movimento. Busque atividades que reduzam a hiperatividade e que diminuam a ansiedade e o estresse, como meditação, yoga, passeios ao ar livre e contato com o Sol – ele promove a alegria, o que é positivo para as pessoas com esse dosha predominante, pois elas são propensas à angústia e à depressão quando em desequilíbrio.

A aromaterapia também auxilia a harmonia dos doshas e pode ser aplicada na forma de incensos, essência aromáticas, sabonetes, sachês e óleos aromáticos. No caso do Vata, algumas indicações são almíscar, cravo, hortelã, lavanda, lótus, mirra, patchouli, sândalo, alfazema, flor de laranjeira, ylang-ylang.

A nossa relação com a natureza é fundamental nos tratamentos do Ayurveda

Por Dr. Ricardo Balsimelli

Imagine que agora, neste momento, você está em Santos ou no Rio de Janeiro, cidades úmidas. E você tem uma amiga ou um parente passando por Brasília, região seca. E a queixa de vocês, no mesmo dia e mesmo horário, é igual -  dor de cabeça. Será que vocês devem receber o mesmo tratamento? Provavelmente não. De acordo com o Ayurveda, a saúde do indivíduo é influenciada por local (cidade; geografia), clima (estação do ano), alimentação e circunstância (emoções). Por isso, na hora de prescrever um tratamento a um paciente, além de se informar sobre o momento da sua vida, é fundamental investigar a geografia e o clima.

O ar de Brasília é seco e o Rio de Janeiro está localizado num território úmido. Dessa forma, o médico precisa levantar informações para entender o que desencadeou uma aparente inofensiva dor de cabeça e como isso está afetando o organismo do indivíduo. E provavelmente a localização e as condições climáticas são determinantes nesse processo, pois elas influenciam os doshas e a saúde humana.  

Vamos nos aprofundar um pouco mais no assunto? Como o entendimento da natureza e da relação do indivíduo com a natureza é fundamental no tratamento ayurvédico das doenças?

Em lugares áridos (jángalam*), desérticos e desprovidos de água, há a predominância do dosha Vata (ar + éter). As estações frias, secas e com vento, como o outono, tendem a agravá-lo, com isso causando secura dos tecidos, gerando contraturas e dor, nesse caso a dor de cabeça seria em aperto ou pressão. Evitar temperaturas excessivamente baixas e manter-se aquecido são ótimas recomendações para acalmar o Vata. Em geral, ele também sente alívio com saunas (úmidas e quentes).

Regiões com altas temperaturas agravam o dosha Pitta (fogo). O verão é o período mais difícil. O calor úmido pode facilmente causar desequilíbrio. A temperatura corporal aumenta, tornando-o mais suscetível às doenças e desequilíbrios relacionados a inflamação, nesse caso a dor de cabeça teria característica pulsátil. Emocionalmente, pode se sentir irritado, agitado e raivoso. A mente aguçada tende a se tornar hipercrítica e julgadora. Para acalmar tudo isso, o dosha Pitta precisa de ambientes frescos, alimentação e plantas medicinais refrescantes.

Ambientes úmidos (ánupam*), pantanosos e com excesso de água (ulbana*) são características do dosha Kapha (água + terra).  Já percebeu como sua pele fica mais úmida e “grudenta” quando você está em cidades como Rio de Janeiro, Santos ou Manaus? Isso acontece porque o Kapha está desequilibrado. O pior período do ano para o Kapha é o início da primavera, quando a umidade está alta e a temperatura é baixa. As dores de cabeça são relacionadas com os atributos da água como resfriados, rinites, sinusites e outras desordens envolvendo muco como, por exemplo, a bronquite. Emocionalmente, é retentor, pegajoso e “gruda” afetivamente. 

O equilíbrio (sama*) dos três doshas é encontrado no Sádhárana*  – terreno normal, nem tão úmido e nem tão árido. Mas isso não significa que o corpo está em plena harmonia. Existe uma dança dos doshas dependendo da região

Portanto, a recomendação de tratamento para dor de cabeça ou qualquer outra queixa do indivíduo deve ser tratada de maneira diferente, caso tenha relação com o clima do local geográfico (bhudesha*) e com a estação do ano. A orientação/prescrição do profissional e as dosagens dos medicamentos serão diferentes. A resposta da pessoa ao tratamento será impulsionada ou agravada pelo ambiente em que ele está.

Vamos fazer um rápido exercício e pensar num distúrbio de vata – ar + éter (seco, deserto, árido): lesões de pele por secura, como na dermatite atópica.

O que acontece?

- O ambiente úmido ajuda no tratamento. Cidades como Santos, Manaus ou Rio de Janeiro, o dosha Kapha predomina, ou seja, “empurra” e ajuda o vata.

- Lugares secos e áridos “empurram” a ter um agravamento de Vata. Os sintomas pioram, ou seja, a pele ficará mais seca e com descamações.

Secura, umidade, calor e frio do ambiente são relevantes e decisivas quando olhamos para nossos padrões de comportamento e organismo. Tente observar isso no seu dia a dia e procure saber como equilibrar essa equação. Em caso de dúvidas, entre em contato pelo email clinicasoha@gmail.com  ou pelas mídias sociais.

 

Você sabia?

Em sânscrito, a palavra ulbana também significa “a membrana que cobre o feto” – algo abundante, excesso, película que envolve e protege. Por isso, esse termo é atribuído ao dosha Kapha – uma abundância que cobre, envolve, como uma “gelatina”.

 

*Termos originais, em sânscrito, citados no Ashtanga Hrdayam (um dos três principais livros do Ayurveda, escrito há aproximadamente 1.500 anos, por Vagbhata, integralmente em versos). Trecho retirado da seção (sutrasthana) 1:23 - capítulo 1, segunda metade do verso/sloka 23 e primeira metade do verso/sloka 24.

Saúde mental: respiração, observação e meditação

Por Dr. Ricardo Balsimelli

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Gostaríamos de propor uma reflexão: estamos realmente presentes em tudo que fazemos no nosso cotidiano? Qual a qualidade da nossa presença nas atividades do dia-a-dia? Quantas vezes nossa mente é sequestrada pelas preocupações diárias e fazemos as coisas no “piloto automático”? Conseguimos não pensar no futuro? Porque estamos sempre nos julgando e achando que poderíamos ter feito algo diferente numa determinada situação que já passou? Estamos atentos aos nossos sentimentos e às nossas emoções que nos sequestram do momento presente?

Com o nível de cobrança e estresse em que vivemos, tudo isso é muito comum. Nenhum de nós consegue controlar os pensamentos que assolam a mente. Com o passar dos anos, pode se agravar à medida que damos mais poder ao piloto automático. Hábitos desencadeiam pensamentos que, aliados a sensações negativas, podem amplificar suas emoções. Antes que a gente perceba, o estresse, a ansiedade e a tristeza tomam conta das nossas vidas.  E o que aconteceu com o gosto e com o prazer pelas coisas? Na correria diária, eles desaparecem. A desatenção tem um preço.

Mas como mudar esse padrão? O primeiro estágio para recuperar a atenção e trazê-la para o presente é – reaprender a se concentrar em uma coisa de cada vez e treinar a mente para isso. O segundo passo é dissolver hábitos que condicionam nosso comportamento.

Quer tentar? Vamos lá.

A forma mais fácil de começar essa mudança é prestar atenção na sua respiração – ela prende você no aqui e agora e monitora seus sentimentos. Quando você consegue perceber claramente se sua respiração está curta ou longa, superficial ou profunda, tensa ou tranquila, começa a sentir os próprios padrões internos e escolher como agir para melhorar o seu estado. É uma âncora para sua atenção, mostrando quando sua mente se dispersou, quando está entediada ou inquieta ou quando você está triste. É a forma de fazer contato consigo mesmo durante o dia. Você adquire mais consciência quando respira de forma atenta. E, estando mais atento, você observa e reconhece seus pensamentos e sentimentos. E consegue se relacionar melhor com eles. Afinal, são “apenas” pensamentos. Eles vão passar.

Todo esse processo tem um nome e provavelmente você já ouviu falar dele: mindfulness (ou meditação da atenção plena), cujos benefícios são cada vez mais visíveis nos diversos contextos da sociedade (profissional, pessoal, terapêutico etc): concentração/foco, segurança, redução de estresse e ansiedade; tratamento de compulsões, melhora nos relacionamentos interpessoais etc. Ajuda também a identificar e entender sentimentos que ameaçam nosso sistema de funcionamento (físico, mental e emocional) – ansiedade, raiva, frustração, insegurança etc.

Nesse processo, é muito importante olhar e cuidar da saúde mental - parte fundamental para qualquer indivíduo que busca equilíbrio, qualidade de vida e bem-estar. Se cuidamos da nossa mente, estaremos cuidando da relação com o nosso corpo também – ele é extremamente sensível às menores centelhas de emoção que percorrem a mente. Faz bem para o indivíduo (nós) e nosso entorno (família, amigos etc). E a meditação é o primeiro passo e um dos mais importantes neste contexto. Para quem quer começar essa prática e não sabe por onde, um dos métodos mais eficazes é o mindfulness.

O mindfulness é um assunto muito amplo e há várias ramificações e abordagens (compulsões, doenças crônicas, autocrítica, educação, compaixão etc) que serão aprofundadas aqui no nosso blog. Não deixe de acompanhar nossos posts. E fique à vontade também para sugerir temas e esclarecer dúvidas, pelo email clinicasoha@gmail.com.

Simplificando e desmistificando o Ayurveda

Por Dr. Ricardo Balsimelli

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Você sabia que as bases do Ayurveda são os cinco elementos da Natureza? E o que eles têm em comum com a ciência moderna?

Há cinco mil anos, não se conheciam os elementos que hoje constituem a tabela periódica. Imersos e observadores, os estudiosos da época perceberam que tudo era formado pelos elementos básicos da natureza, considerando-os fundamentais em tudo que compõe o planeta - terra, água, fogo, ar e espaço (ausência de matéria, vácuo). Eles se encontram misturados em diferentes proporções, tendo em sua estrutura as mesmas características dos elementos da natureza que os constituem. 

Para a ciência moderna, tudo que existe é formado pelos 118 elementos químicos da tabela periódica, como hidrogênio, oxigênio, carbono etc. Unidos, eles formam diferentes moléculas com estruturas e características específicas. Ao longo de anos de estudos, esses elementos foram isolados, sintetizados e manipulados de modo a serem usados na agricultura, nos remédios, na indústria, na medicina, entre outros. Ao investigar nosso corpo, a ciência descobriu também que o nosso metabolismo depende do trabalho das enzimas (grupos de substâncias orgânicas de natureza que têm funções catalisadoras, catalisando reações químicas que, sem a sua presença, dificilmente aconteceriam). Se fizermos um comparativo com o Ayurveda, não necessariamente temos fogo no corpo, mas o fogo (Ayurveda; natureza) é uma forma de representação da enzima (Ciência Moderna; elementos químicos).

 

Dessa forma, podemos trazer o Ayurveda para a nossa realidade e para o nosso dia-a-dia de uma maneira muito simples e fácil de se entender. Nas próximas linhas, explicarei como os antigos estudiosos chamavam de “elementos da Natureza” podem influenciar nos nossos aspectos físicos e mentais, de acordo com as características de cada um deles.

Elemento terra - é o de maior densidade. No ser humano, representa-se em maior quantidade nas estruturas mais sólidas como órgãos e tecidos, ossos, pele, unhas, cabelos. No aspecto mental, a terra traz as qualidades de estabilidade, segurança, confiança, inflexibilidade e rigidez.

Elemento água - mais fluídico. São os líquidos orgânicos como sangue; lágrima; saliva; linfa (parte do sangue que saiu dos vasos e passou pelos tecidos); líquido articular (protege as articulações); líquor (encontrado no sistema nervoso central); menstruação; leite materno; líquido amniótico (protege o feto na gestação) e sêmen. Em nosso corpo, a água tem o papel de proteção, nutrição e lubrificação das estruturas. Sendo assim, seu aspecto psicológico é acolhedor, gosta de nutrir as pessoas, receptivo, cuidador, menos racional e mais emotivo. Sentimentos como ciúme e inveja também são bem presentes nesse caso.

Elemento fogo - presente nas reações metabólicas e manutenção da temperatura do nosso organismo. Na natureza, o fogo transforma, por exemplo, a madeira em cinzas. Em nosso corpo, está relacionado com a digestão (transformação de alimentos em nutrientes e excretas), produção de energia e calor por meio da “queima” de nutrientes, visão (transformação do estímulo da luz em imagem). Psicologicamente, traz o entusiasmo, a alegria, a intensidade, o discernimento (separa o que é bom ou ruim), a raiva, a impaciência e a crítica.

Elemento ar - está na respiração, na porosidade dos ossos (para que sejam mais leves), no oxigênio que circula pelo sangue, e na formação de gases provenientes da digestão. Promove o movimento no corpo – o ar/vento é responsável por balançar os galhos das árvores, espalhar sementes, mover a areia das dunas. No aspecto psicológico, o ar rege os movimentos da mente, pensamentos, desejos (movimento por buscar o que quer), reflexão (movimento em busca de analisar e solucionar), insegurança (por ser de baixa densidade, leve, promove a sensação de “perder o chão”), fluxo de pensamento acelerado, agitação.  

Elemento espaço - presente entre os órgãos, vísceras, tecido conjuntivo (tecido de sustentação), gordura e etc. Mentalmente, representa o espaço entre um pensamento e outro, busca pela espiritualidade, busca pelo que está além do que nossos órgãos dos sentidos conseguem captar.

 

Ficou claro?

 

Agora imagina esses elementos presentes e misturados no nosso corpo.

 

Sim, é isso mesmo. Na natureza, esses elementos se misturam. Em nosso corpo também. Temos os cinco elementos em diversas proporções, promovendo uma estrutura física, mental e emocional diferentes uns dos outros.

Dentro dessas combinações, o Ayurveda percebeu uma grande afinidade por determinados elementos e o resultado  da união entre eles é conhecida como Doshas.

Com a união de terra e água, surge o dosha Kapha, com as características destes dois elementos, promovendo a forma do corpo, lubrificação, nutrição e proteção. Psicologicamente relacionado ao carinho, proteção, estabilidade, amabilidade, acolhimento, gosta de uma rotina bem estabelecida, sensibilidade, doçura, calma e pacifismo. Em casos de desequilíbrio (aumento de Kapha), temos uma produção excessiva de muco (asma, rinite e sinusite), edema (inchaço, excesso de líquido), sensação de peso, letargia, diabetes (excesso de “nutriente” - glicose), obesidade e tumores (excesso de células, excesso de matéria). Psicologicamente, pode apresentar depressão, ciúmes, inveja, tristeza, inércia, passividade, mágoa, rancor, inflexibilidade.

Da união de fogo e água, temos o dosha Pitta, com as características predominantes do fogo, apresentando poucos atributos do elemento água, que nesse caso aparecem como oleosidade da pele e couro cabeludo. Esse dosha está relacionado ao metabolismo e à digestão. Em equilíbrio, apresenta bom apetite e boa digestão, com sensação de leveza após comer, disposição para as atividades diárias, temperatura corporal em 36,5°C bem distribuída pelo corpo, uma boa constituição muscular. Psicologicamente são pessoas de alta produtividade e eficazes, corajosas e ávidas por desafios intelectuais e emocionais, propensas à liderança com boa oratória e influência sobre as pessoas.  Em desequilíbrio, esse dosha promove sensação de calor excessivo, queimação no estômago e refluxo ácido, processos inflamatórios (inflamação tem as mesmas características do fogo apresentando calor, vermelhidão, sensação de queimação, inchaço que corresponde ao elemento água) como gengivite, conjuntivite, tendinite entre outras. Psicologicamente, podem apresentar impaciência, raiva, fúria, irritabilidade, grande necessidade de controle e manipulação sobre as pessoas.

Finalmente temos Vata, proveniente da união dos elementos ar e espaço. Apresenta as características do vento, portanto move o corpo, tem relação com a circulação sanguínea, peristalse (movimentos do sistema digestivo), respiração (fluxo de entrada e saída de ar), fala (movimento do ar saindo do corpo), leveza das estruturas do corpo (se os ossos não fossem porosos seriam muito pesados), audição (o ar faz vibrar o tímpano e propicia o som). Psicologicamente, esse perfil tem boa criatividade (o ar buscando solução para problemas), facilidade para mudanças na rotina (o vento tende a ser irregular na natureza, ora soprando para um lado, ora para outro), gosta de viajar, conhecer culturas novas, desenvolver novas habilidades e aprender coisas. Em desequilíbrio, pode apresentar falta de ar, eructações (arrotos), cólicas por apresentar muitos gases no intestino, alteração na pressão sanguínea e batimento cardíaco, sinais e sintomas de secura no corpo (pois o vento seca, por exemplo, as roupas no varal mais do que o próprio sol) como secura nos olhos, boca, pele, vagina. Esse “secar” também promove redução do volume e da força dos tecidos, gerando unhas e cabelos fracos, perda de peso, perda de massa muscular e fezes ressecadas. Psicologicamente, está relacionado com estados de ansiedade (como um vendaval de pensamentos na mente que leva a atenção para o passado e futuro e não estabiliza no presente), falta de atenção (a mente se move como o vento e não consegue se fixar), insegurança e medo (por estar “leve”, perde a sensação de segurança da terra).

Interessante, não é mesmo? Todo esse conhecimento adquirido há milênios apenas observando e comparando nosso corpo com o que ocorre na natureza!

No próximo texto vamos falar sobre como podemos equilibrar esses elementos e doshas em nosso corpo.

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